A busca de consenso sobre a crise da indústria

Fernando Dantas

01 de junho de 2014 | 20h56

Para João Carlos Ferraz, diretor do BNDES, existem dois pontos de consenso entre todas as diferentes escolas de pensamento econômico no Brasil atual: o País precisa priorizar o aumento dos investimentos e o maior crescimento da produtividade. Na segunda-feira, 26/9/14, em São Paulo, na abertura do seminário “Indústria e Desenvolvimento Produtivo do Brasil”, Ferraz disse ter esperança de que o encontro, que reuniu economistas heterodoxos e ortodoxos, sirva para lançar um “pacto supraescolas econômicas pelo investimento e pela produtividade”.

O seminário, na segunda e terça da semana passada, foi uma promoção conjunta da Escola de Economia de São Paulo (EESP) e do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), ambos da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O Ibre é sediado no Rio.

Na abertura e no início do primeiro painel na manhã de segunda-feira, o tom sem dúvida foi o de busca de consensos. A tarefa, porém, não será fácil. Em comum, a constatação de que a indústria brasileira vive uma grande crise, e que o vocábulo “desindustrialização” foi definitivamente incorporado às análises econômicas à esquerda e à direita.

Como apontou Francisco Eduardo Pires de Souza, da UFRJ e do BNDES, no primeiro painel sobre “indústria e desenvolvimento econômico”, o nível da produção industrial hoje está próximo do registrado em 2008. “Já são seis anos de estagnação”, disse o economista.

Yoshiaki Nakano, diretor da EESP, notou que a desindustrialização no Brasil é um fenômeno distinto da que ocorre nos países ricos, onde o processo está ligado ao desenvolvimento das cadeias globais de produção e à transição das economias avançadas para os serviços dinâmicos de alta tecnologia.

Já no Brasil, segundo Nakano, os problemas da indústria estão associados a “estagnação, regressão e primarização”. Os serviços que crescem no Brasil não são sofisticados nem derivados da indústria, mas tem caráter mais de atendimento pessoal, como restaurantes e bares, oficinas mecânicas, etc.

No seu diagnóstico, além de apontar para o custo Brasil e a falta de estratégia global do País, o diretor da EESP criticou o que chama de “trio mortal”: juros altos, câmbio valorizado e alta carga tributária”. É esta combinação, para ele, que mantém a taxa de investimento brasileira no nível altamente insatisfatório de 18% do PIB.

Nakano é um crítico do funcionamento da Selic (taxa básica determinada pelo Banco Central) e do overnight no Brasil, que, segundo ele, produz um juro de longo prazo próximo ao de curto prazo. Para Nakano, essa estrutura leva a uma política de juros altos “que beneficia os especuladores e penaliza o setor produtivo”.

Num sinal de que há mais distância entre os economistas quanto à terapia do que ao diagnóstico, Otaviano Canuto, do Banco Mundial, embora concordasse em linhas gerais com os argumentos de Nakano, notou que uma mudança na estrutura de financiamento da dívida pública brasileira “exige uma redução da dívida bruta e que revisitemos a estrutura do gasto público”.

Em outras palavras, o ambiente macroeconômico favorável preconizado por Nakano – juros baixos, câmbio desvalorizado e carga tributária menor – esbarra na dificílima questão fiscal ligada à rigidez do aumento da despesa pública. Canuto também participou da abertura do evento.

Luiz Guilherme Schymura, diretor do Ibre, chamou a atenção para o recuo da parcela do PIB representada pela indústria a partir de 2010 e alertou que, levando em conta os indicadores recente de confiança da indústria, que estão muito ruins, essa fatia pode cair ainda mais.

Um tema levantado por Pires de Souza e David Kupfer, também da UFRJ e do BNDES, são os serviços sofisticados ligados à indústria, como pesquisa e desenvolvimento (P&D), projeto, marketing, logística e serviços pós-venda. Para ambos, esses serviços têm de entrar no radar da política industrial, que não pode ficar focada apenas no aspecto fabril da indústria.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News Broadcast na segunda-feira, 26/5/14.

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