A campanha e o fosso entre PT e mercado

A partir de 2006, PT inflamou retórica nas campanhas em temas econômicos, tornando-se refém das suas própriras críticas às privatizações e, agora, à política monetária autônoma.

Fernando Dantas

17 de setembro de 2014 | 10h38

As campanhas eleitorais para presidente têm contribuído para aumentar o fosso entre investidores e mercado financeiro, de um lado, e os governos petistas, do outro. Curiosamente, é o inverso do ocorrido quando Luiz Inácio Lula da Silva chegou pela primeira vez ao governo, em 2002.

Naquela campanha, Lula começou como o pavor do mercado e terminou como grande esperança de que o Brasil houvesse superado definitivamente a etapa do populismo econômico de estilo latino-americano. No meio do caminho, houve uma crise gravíssima de confiança, o dólar a R$ 4, a Carta ao Povo Brasileiro e um acordo de emergência com o FMI apoiado por todos os candidatos, o do PT inclusive.

Com o início do primeiro mandato de Lula e a política econômica de Palocci de continuidade a aprofundamento das reformas tucanas, junto com uma agressividade inédita na política social, a ideia era de que o País tinha dado um salto institucional enorme. A esquerda havia chegado ao poder e estava fazendo o que cabe à esquerda fazer, isto é, priorizar os pobres, sem desorganizar a economia.

Com o mensalão e a substituição de Palocci por Mantega na Fazenda, esse quadro começou a mudar, mas de início poucos acharam que a política econômica fosse ser fundamentalmente alterada. Muito se fala da crise global, e do espaço que criou para o expansionismo keynesiano, como o momento em que o vento virou definitivamente de lado. E é indubitável que o sucesso imediato do experimento anticíclico da época subiu à cabeça da equipe econômica e pode ter sido uma das causas da “nova matriz” posteriormente tentada.

Um fator que chama menos a atenção são as campanhas eleitorais e a o impacto do discurso de palanque nas posteriores ações do governo. Em 2006, num momento difícil, o PT descobriu o valor eleitoral de atacar as privatizações, mesmo que o próprio partido já tivesse experiências (como a de Palocci em Ribeirão Preto) com o conceito e a época áurea da sua demonização já estivesse no passado, junto com as diatribes contra a responsabilidade fiscal, os juros da dívida interna e outros vilões de outrora. Em 2010, o partido voltou à carga contra a privatização.

Essas ações de campanha acabaram por influenciar a posterior ação do governo. Era preciso agora evitar a todo custo o rótulo de “privatizante”, e isso é um dos fatores que levou à grande demora de Dilma (que, na verdade, ainda dura) em estruturar um programa de concessões em infraestrutura bem sucedido. Este erro, que é reconhecimento internamente por algumas correntes mais liberais do PT, está ligado à enorme frustração da taxa de investimentos no governo Dilma. Isto, por sua vez, pode explicar parte do mau desempenho do PIB.

Na área macroeconômica, uma das dificuldades com as quais a presidente lidou durante o seu primeiro mandato foi a sensação generalizada do fim da autonomia operacional informal do BC de que gozaram Armínio Fraga e Henrique Meirelles, predecessores de Alexandre Tombini. O discurso oficial, ainda que discreto, era de que a autonomia estava mantida, mas a sensação era de que havia ordens que iam direto do Planalto para o Copom.

Agora, com a proposta de Marina de tornar legal a autonomia do BC, os marqueteiros petistas enxergaram a possibilidade de reeditar o sucesso da demonização da privatização em outra área normalmente atribuída ao “neoliberalismo”. Os ataques absurdos – não à autonomia legal em si, mas à ação do BC de maneira geral, que, deixado a si mesmo, defenderia de forma maléfica e deliberada os interesses do setor financeiro contra os da população – devem, como no caso da privatização, condicionar as ações e as percepções num eventual segundo mandato de Dilma Rousseff.

“A campanha escancarou o que era visto como simples desconfiança, e agora eu vejo muita gente no mercado em pânico com o que pode ser a condução da política macroeconômica num segundo mandato da presidente”, diz um experiente economista-chefe de uma gestora de recursos.

Qualquer que seja o BC de um segundo mandato de Dilma, ele já partirá de uma posição extremamente fragilizada pelo que é percebido como perda de autonomia da política monetária a partir de 2011. Com o discurso de campanha demonizando a ação independente do PT, resgatar a credibilidade da autoridade monetária parece uma tarefa virtualmente impossível caso Dilma seja reeleita.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast.

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 17/9/14, terça-feira.

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