A campeã da política industrial

Recém-lançado estudo mostra que a China é, entre grupo de países importantes com tradição de política industrial, aquele que disparadamente mais utiliza dinheiro público para estimular empresas e setores.

Fernando Dantas

26 de maio de 2022 | 10h48

Recente trabalho dos pesquisadores Gerard DiPippo, Ilaria Mazzoco e Scott Kennedy para o “Center for Strategic & International Studies” (CSIS, think-tank americano cujo tema central é a segurança nacional) mostra que a China é, de fato, a grande campeã global dos gastos com política industrial.

O estudo não se propõe a julgar os efeitos da política industrial ou tomar parte no eterno debate se vale a pena ou não o Estado interferir nas atividades do setor privado e utilizar dinheiro público para estimular esses ou aqueles setores.

A proposta é de efetivamente medir e comparar o quanto gasta em política industrial um grupo de países com tradição nesse tipo de despesa (China, Brasil, França, Alemanha, Japão, Coreia do Sul, Taiwan e Estados Unidos).

O Brasil aparece como o que menos gasta, mas com porcentuais do PIB não muito distantes daqueles dos Estados Unidos, Alemanha e Taiwan.

A tarefa é menos trivial do que possa parecer. Como explicam os autores, a começar pela definição do que seja “política industrial”, há muitas dificuldades em quantificar esse tipo de intervenção do Estado na economia. Os dados são difíceis de obter, e há muitas inconsistências entre diferentes países na forma como essas informações são reportadas.

E há também elementos de política industrial que são difíceis de quantificar (e que o estudo conservadoramente excluiu da conta), como compras governamentais e barreiras de importação. Os autores também alertam que o trabalho pode subestimar medidas de política industrial para as quais os dados sejam indisponíveis ou incompletos.

Feitos esses alertas, e tomando o ano de 2019 com base de comparação, os autores estimam que a China gastou 1,73% do PIB em política industrial.

A comparação com outros países leva em conta um conjunto específico de iniciativas de política industrial: fundos de investimento estatais, crédito subsidiado, apoio do governo a Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), incentivos tributários a P&D, outros tipos de incentivos tributários e subsídios diretos.

Quando se contabilizam apenas essas modalidades de política industrial, o total gasto pela China cai para 1,48% do PIB, sendo a diferença por conta de “fatores específicos da China”. Dessa forma, a comparação com os outros países, em que somente esse grupo de modalidades entra na conta, fica mais justa.

A comparação mostra que a China está disparadamente na frente em termos de política industrial. Em 2019, a Coreia do Sul gastou 0,67% do PIB; a França, 0,55%; a Alemanha, 0,41%; Taiwan, 0,41%; Estados Unidos, 0,39%; e Brasil, 0,33% do PIB.

O estudo aponta ainda que as principais diferenças da China em relação aos outros países estão em três práticas de política industrial.

A primeira é o crédito subsidiado, item no qual a China gastou 0,52% do PIB em 2019, comparado a 0,07% no Brasil, 0,04% na França, 0,13% na Alemanha, 0,22% no Japão, 0,12% na Coreia, 0,01% em Taiwan e 0% do PIB nos Estados Unidos.

O segundo item são os subsídios diretos, nos quais a China despendeu 0,38% do PIB em 2019, comparado a 0,07% no Brasil, 0,01% na França, 0,05% na Alemanha, 0,1% no Japão, 0,05% na Coreia, 0% em Taiwan e 0,01% do PIB nos Estados Unidos.

Finalmente, há a categoria de “outros incentivos tributários”, em que a China também está à frente, com despesas de 0,38% do PIB em 2019. O Brasil gasta 0,13% do PIB; a França, 0,02%; a Alemanha, 0,12%; o Japão, 0%; a Coreia, 0,16%; Taiwan, 0,07%; e Estados Unidos, 0,11% do PIB.

Os autores do estudo observam que a China intensificou suas políticas industriais verticais – no Brasil, chamadas de “setoriais”, quando o governo escolhe setores ou empresas específicas para dar o seu apoio – num estágio de desenvolvimento econômico durante o qual outros países asiáticos, como Coreia, Taiwan e Japão, desaceleraram essas práticas para dar lugar a reformas horizontais, isto é, que atingem toda a economia.

Três dessas “escolhas” do governo chinês, cujos casos são detalhados no estudo, são toda a cadeia do alumínio, os semicondutores e o veículos elétricos.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)