A catástrofe anunciada da Venezuela

No início de 2016, o economista Ricardo Hausmann previu a crise humanitária que se abateu sobre a Venezuela, num momento em que a situação econômica já era gravíssima, mas ainda não se vislumbrava tamanha catástrofe social. A esquerda no Brasil se apequenou ao não denunciar a terrível deformação populista do chavismo, apesar dos inúmeros alertas feitos desde os primórdios do regime bolivariano.

Fernando Dantas

24 de janeiro de 2019 | 19h38

Em janeiro de 2016, durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, o economista venezuelano Ricardo Hausmann, da Universidade de Harvard, previu, em entrevista que me concedeu, que seu país caminhava para um colapso econômico de enormes proporções, que causaria uma “crise humanitária”. A frase está registrada no final de uma matéria que fiz sobre o populismo latino-americano durante o Fórum.

Não foi, de forma alguma, uma declaração que obtive de forma exclusiva. Hausmann, com temperamento exuberante e gosto pela retórica, martelou o mesmo alerta onde e como pôde à época, incluindo um artigo publicado no Financial Times em meados de fevereiro (link para assinantes).

É importante frisar que, naquele momento, embora já se soubesse que a economia da Venezuela passava por gravíssimos problemas, e já houvesse relatos pitorescos de falta de itens como papel higiênico, ainda não estava plenamente configurada a crise humanitária que arrasaria o país nos anos subsequentes, e levaria a um dos maiores êxodos – senão o maior – da história latino-americana.

Uma rápida pesquisa no Google permite notar, por exemplo, que no primeiro trimestre de 2016 ainda não havia surgido no noticiário brasileiro a crise de imigração de venezuelanos para Roraima.

A previsão de Hausmann, portanto, foi certeira, o que é um grande mérito. É verdade que, à época, e mesmo antes, não havia dúvida para qualquer economista sério que a Venezuela rumava para uma crise de grandes proporções. Mas uma catástrofe humanitária é algo que normalmente se associa a países de baixa renda, na África e em alguns rincões da Ásia, e não a um país de renda média, grande exportador de petróleo, na América do Sul.

Eu mesmo, devo confessar, fiquei cético em relação ao prognóstico do economista venezuelano: uma enorme crise econômico-social, sim, sem dúvida, estava na cara; mas “crise humanitária” me pareceu à época um artefato verbal de Hausmann.

O que essas recordações ilustram é como houve alertas sobre a insanidade bolivariana ao longo dos governos de Hugo Chávez e de Nicolás Maduro. Mesmo que não se comprasse o prognóstico extremo do economista de Harvard, que se provou correto, havia consenso de que o desfecho da aventura populista na Venezuela seria desastroso.

Isso já estava claro desde 2005, quando visitei o país para fazer matérias para o Estadão (cópia da página para os que têm acesso ao acervo do Estadão). Eu não estava sozinho, é claro. Havia interesse internacional na experiência chavista. À mesma época, por exemplo, a revista britânica The Economist publicou um longo material sobre a Venezuela.

O teor de muitas dessas reportagens, incluindo as que publiquei no Estadão, era parecido. Chávez era popular, e este fato era compreensível. Além do seu inegável carisma, ele estava efetivamente investindo nos pobres do país. Numa das maiores favelas da grande Caracas, médicos jovens e motivados atendiam à população numa clínica hospitalar nova em folha, impecavelmente refrigerada e bem provida de modernos equipamentos. Sentia-se no ar um certo fervor cívico, a vontade de que as coisas dessem certo.

A gestão econômica, entretanto, era completamente insana. Ao contrário do “socialismo real” dos países da finada Cortina de Ferro, não havia nem a tentativa de pretender que havia algum rigor científico do “planejamento central” socialista ou coisa que o valha. Tampouco se acenava com alguma teorização cepalina para justificar a intervenção estatal em nome do desenvolvimento.

Chávez simplesmente gastava as receitas públicas derivadas do petróleo de forma desbragada e em rompantes populistas, quando lançava suas “missiones”, como eram conhecidos os diferentes programas e iniciativas na área social. Empresas eram nacionalizadas a esmo, ao sabor de caprichos, conflitos políticos com os donos ou a vontade de conter a inflação na marra.

O falecido presidente, na verdade, tinha uma inclinação pela visão de certo cristianismo de que a riqueza e a prosperidade em si mesmas são pecaminosas e incompatíveis com o tipo de socialismo latino-americano que ele tentava implantar (embora, obviamente, esta noção não se aplicasse aos apaniguados e sanguessugas do regime que, como em toda autocracia, se locupletaram na corrupção).

Em 2005, os anos de máxima glória do chavismo ainda estavam por vir. O boom de commodities (incluindo o petróleo) apenas se iniciava, e a Venezuela, acompanhando a maioria dos países latino-americanos produtores e exportadores de matérias-primas, obteve relevantes avanços sociais até o fim da década passada e início desta.

Desde os primeiros anos do governo Chávez, iniciado em 2002, qualquer observador com um mínimo de honestidade intelectual percebia que o presidente estava minando a democracia por dentro e buscando o máximo possível de controle econômico, político e social. Figuras de oposição ao regime podiam discorrer por horas sobre as incessantes manobras para controlar a Justiça eleitoral, ampliar o número de juízes da Suprema Corte com aliados políticos ou redesenhar distritos eleitorais para se autofavorecer.

A partir do fim do boom de commodities, em 2012, o colapso do regime bolivariano era uma questão de tempo. A morte de Chávez e sua substituição por Maduro, em 2013, um político desprovido do carisma do seu mentor, só piorou a situação. Depois de certo ponto, já não era possível considerar a Venezuela nem mais uma democracia esculhambada. O regime tornou-se ditatorial, inclusive com emprego descarado de violência do Estado contra os adversários, além das arbitrariedades eleitorais, embora nunca tenha conseguido o tipo de controle quase absoluto de ditaduras de partido único como China, Cuba e Coreia do Norte.

Deformação populista

No seu artigo de fevereiro de 2016 no Financial Times, Hausmann busca mostrar, em rápidas pinceladas, a magnitude da loucura bolivariana em termos de gestão econômica. Durante o boom do petróleo, quando choviam dólares nos cofres do tesouro venezuelano, Chávez conseguiu a proeza de quadruplicar a dívida externa do país. Em 2012, quando o barril de petróleo já tinha caída para US$ 111, o presidente gastava como se estivesse a US$ 197. O PIB caiu 4% em 2014 e 10% em 2015 (segundo os números do artigo). A inflação passou de 200%, o déficit público foi para 20% do PIB e o bolívar perdeu 92% do valor no mercado livre.

A partir de 2016, tudo piorou muito mais, com quedas anuais do PIB por volta de 15% e hiperinflação.

O caso do chavismo, desde o início, é exemplar do pior tipo possível de deformação populista da ideologia de esquerda. Era uma chance única, por exemplo, para a esquerda brasileira se diferenciar e mostrar suas credenciais socialdemocratas. Para isso, não era preciso conspirar contra o governo do país vizinho, e muito menos ameaçar intervir – bastava uma postura crítica permanente, o oposto da apologia tantas vezes feita pelos partidos de esquerda nacionais, inclusive no Poder.

Agora, a Venezuela caminha para o desfecho dramático de uma tragédia amplamente anunciada. O país está destroçado em todos os sentidos, e não há nenhuma evidência de que o eventual regime pós-Maduro, se de fato se impuser, terá condições de unir a Venezuela em torno de um longo e penoso programa de reconstrução. O populismo não destrói apenas o presente, mas também o futuro.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 24/1/19, quinta-feira.

Tendências: