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A charada do produto potencial

Dificuldade em estimar o hiato do produto explica desvios da inflação em relação à meta no Brasil e outros países latino-americanos, segundo estudo do FMI.

Fernando Dantas

02 de junho de 2015 | 22h44

Uma das questões mais importantes e difíceis para a política macroeconômica é a do produto potencial e do chamado “hiato do produto”. De forma simplificada, trata-se de quanto a economia pode crescer sem produzir desequilíbrios (inflacionários ou nas contas externas) e a que distância, para mais ou para menos, o ritmo de um determinado momento está daquele potencial.

No Brasil de hoje, é um tema crucial. Há a ideia de que o produto potencial despencou, mas o ritmo da atividade também veio abaixo. O Banco Central continua apertando a política monetária mesmo com uma economia que deve se contrair de 1,5% a 2% este ano, segundo alguns prognósticos. Se o hiato do produto já estiver muito mais aberto do que julga, com fortes efeitos anti-inflacionários já encomendados, a autoridade monetária pode estar reforçando desnecessariamente a dose de uma medicação com nocivos efeitos colaterais.

Mas ninguém em sã consciência pode dizer que tem certeza absoluta sobre essa questão, porque o PIB potencial é uma variável econômica não mensurável no sentido convencional do termo. Diz-se inclusive que ela é não observável, e pode apenas ser imprecisamente deduzida de forma indireta, por meio de outros indicadores. O comportamento passado da economia, visto da perspectiva do presente, dá pistas sobre o PIB potencial, à medida que se consegue relacionar o ritmo de crescimento efetivo e seus efeitos em termos de pressionar mais ou menos os fatores de produção. Mas como o PIB potencial pode oscilar, estimativas baseadas no passado podem falhar.

Durante o recente Seminários de Metas de Inflação do Banco Central, um trabalho acadêmico sobre o tema do hiato do produto chamou a atenção de alguns dos participantes: “Output Gap Uncertainty an Real-Time Monetary Policy (Incerteza sobre o hiato do produto e política monetária em tempo real). É um estudo do FMI, realizado pelos economistas Francesco Grigoli, Alexander Herman (que o apresentou no seminário), Andrew Swiston e Gabriel Di Bella.

Entre outros objetivos, o estudo analisa as implicações da incerteza sobre o hiato do produto em cinco economias latino-americanas (incluindo o Brasil) que implementaram o sistema de metas de inflação na última década. A conclusão é que reavaliações do hiato do produto a posteriori explicam um pedaço substancial dos desvios da inflação em relação à meta. Isto, por sua vez, sugere que as decisões de política monetária foram tomadas com bem pouca visibilidade sobre quais eram os reais níveis do produto potencial e do hiato do produto a cada momento.

Há um gráfico sobre o Brasil, por exemplo, que mostra que desde 2010 a taxa de juros efetiva foi sistematicamente menor do que aquela que seria sugerida pela estimativa do hiato do produto a posteriori. Não surpreendentemente, foi o período em que a inflação esteve bem mais próxima do teto da meta do que do centro.

Um respeitado gestor que assistiu à apresentação de Herman ficou extremamente bem impressionado com o paper. “Uma coisa é saber que existe incerteza sobre o hiato do produto, outra é medir direitinho como eles fizeram”, ele comentou.

Para o gestor, o trabalho indica que é muito arriscado usar política fiscal anticíclica fora de momentos óbvios de colapso de demanda, como a crise global de 2008 e 2009. Ele nota que, dada a incerteza inerente ao hiato do produto, a política monetária, com suas decisões frequentes e de efeito imediato em reuniões de órgãos como o Copom, está melhor aparelhada para ir fazendo correções em tempo real e tentando se aproximar da melhor maneira possível das decisões ótimas. Já a política fiscal, que envolve definições orçamentárias, negociações políticas e é muito mais rígida no tempo, seria pouco indicada para a gestão de demanda em tempos normais, quando existem tantas incertezas quanto ao produto potencial e ao hiato de produto.

Porém, mesmo para a política monetária, a incerteza sobre o hiato do produto torna tudo mais difícil: “É mesmo muito de arte, acho que os dirigentes de BC deviam ganhar o triplo”, brinca o gestor. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 28/5/15, quinta-feira.

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