A China e o real

Confusões econômicas e sanitárias chinesas nos últimos meses podem ajudar a explicar as idas e vindas da cotação da moeda brasileira.

Fernando Dantas

21 de maio de 2022 | 13h27

O câmbio do real tem ido de um lado para o outro desde o início do ano, confundindo um pouco quem foca muito em fatores domésticos, como a balbúrdia política e as incerteza fiscais, e em fatores clássicos como o juro americano (e o diferencial com o brasileiro) e a aversão global a risco.

Uma possível peça do quebra-cabeça que dá mais sentido às oscilações recentes do real é a China.

Antes de chegar lá, como analisa Luciano Sobral, economista-chefe da Neo Investimentos, é útil levar em conta que o mais difícil de explicar era o nível muito depreciado de R$ 5,7 do final do ano passado. Chegaram a ser considerados fatores técnicos como “overhedge” de bancos no exterior e o envio sazonal de lucros e dividendos para as matrizes por parte de multinacionais.

A partir daí, no entanto, o real entrou em rota de valorização, até chegar a um valor máximo em torno de R$ 4,6 por dólar em fevereiro e novamente em abril (no intervalo entre esses dois pontos, o real oscilou, chegando a R$ 4,74 no momento de maior desvalorização).

Na visão de Sobral, o movimento de apreciação a partir de janeiro (não necessariamente o nível mais valorizado a que a moeda chegou) pode ser visto mais como uma normalização a partir daquele patamar exageradamente desvalorizado do final de 2021.

“Os astros se alinharam, o grande diferencial de juros começou a contar, o fiscal melhorou um pouco, o lado político se acalmou, as commodities subiram”, ele resume.

A partir do final de abril, entretanto, o real voltou a se desvalorizar, atingindo um pico de desvalorização de R$ 5,14 em 11 e 12 de maio. É possível estabelecer algum paralelo entre esse movimento e o desempenho do mercado acionário americano (o S&P 500 caiu a partir do final de março) e o juro dos Estados Unidos – a rentabilidade do Treasury de 10 anos, por exemplo, vem em forte alta desde o início de ano e teve um pico (3,12%) no início de maio.

Mas como explicar a recuperação do real na última semana, com a moeda sendo cotada hoje a R$ 4,89 quando esta coluna estava sendo escrita [quinta-feira, 19/5]? É verdade que a rentabilidade do Treasury caiu um pouco, mas ainda está no nível muito alto de 2,85%. Já o S&P 500 praticamente só fez cair.

É aí que a peça ‘China’ entra no quebra-cabeça. Como nota Fernando Rocha, economista-chefe da JGP, o real começou a depreciar de novo, depois do movimento de alta do início do ano, justamente em abril, quando as medidas de contenção da variante ômicron na China, com destaque para o severo lockdown de Xangai, assumiram proporções mais drásticas.

Sobral, por sua vez, acrescenta que, de meados de abril até o início de maio, foi justamente quando o renmimbi se desvalorizou, tendo estabilizado e até tido ligeira apreciação desta última data para cá.

O que tudo isso significa? Bem, a China como grande consumidora de commodities é uma economia cujo vigor tende a fazer valorizar moedas de emergentes como o real brasileiro. É verdade que boa parte das commodities sustentou a alta nesse período mais complicado da economia chinesa, mas, ainda assim, a incerteza sobre o motor asiático pode ter influenciado negativamente as moedas de vários emergentes.

E, como nota Rocha, foi justamente na última semana que simultaneamente começou a se falar na reabertura de Xangai e que o real voltou a se apreciar.

Se for verdade que o fator China está tendo um papel importante nos movimentos recentes do real e de outras moedas emergentes, é bom ser cauteloso, porque está longe de certo que a China, com sua política de Covid zero, não vá de novo ter que apertar o torniquete da economia com mais lockdowns.

De qualquer forma, tanto Rocha como Sobral veem as flutuações recentes do real sendo determinadas muito por fatores externos, sem que a incerteza eleitoral – por enquanto – tenha entrado de forma relevante no jogo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 19/5/2022, quinta-feira.