A China e os “super ursos”

Os "superbears", ou "super ursos", são os analistas com visão mais negativa sobre a China. A palavra 'bear', no jargão internacional dos mercados, significa pessimista. O lendário investidor Kyle Bass é um super urso em relação ao enorme endividamento bancário na China, que ele acha que vai provocar um "pouso brusco" da segunda maior economia do mundo, com enorme desvalorização do renminbi, a moeda do país. Mas há uma corrente que discorda desse negativismo, como fica claro em recente relatório do banco suíço UBS, que, ponto por ponto, contesta as visões de Bass, sem citar o nome do investidor.

Fernando Dantas

19 Fevereiro 2016 | 12h07

Desde o início do ano, a China está no foco central das preocupações que já causaram tantos estragos aos mercados globais. Há um consenso geral de que a economia chinesa está se desacelerando, e que há problemas no caminho, como o excesso de crédito bancário e suas crescentes perdas. Mas surgiu recentemente uma clara distinção entre os “superbears” (“super ursos”, a palavra usada para os pessimistas no jargão do mercado) e aqueles que enxergam trepidações à frente, mas sem rupturas mais traumáticas.

Um dos mais destacados representantes dos ‘superbears’ em relação à China – alguns usam também a expressão ‘permabear’, isto é, pessimista permanente – é Kyle Bass, fundador e principal executivo do hedge fund Hayman Capital, sediado em Dallas, no Texas.

Bass é conhecido como membro do pequeno grupo de investidores que previu e ganhou dinheiro com a crise das hipotecas subprime nos Estados Unidos em 2008. Ele foi entrevistado pelo jornalista e escritor Michael Lewis antes de este escrever “A Jogada do Século” (“The Big Short”), em que se baseou o filme “A Grande Aposta” (justamente sobre os ganhadores na crise global), mas acabou não entrando no livro. Em seguida, entretanto, Bass figurou como personagem importante em “Bumerangue – Uma Viagem pela Economia do Terceiro Mundo”, livro que Lewis escreveu em 2011, após “Big Short”.

Em recente carta para investidores, Bass prevê que a China vai ter um “pouso forçado” (“hard landing”), que o renminbi vai se desvalorizar em mais de 30% em relação ao dólar e que o governo chinês terá de fazer uma gigantesca intervenção para salvar seu sistema bancário. O Hayman Capital está posicionado para lucrar caso seus prognósticos estejam corretos, e, na carta, Bass escreve que “uma vez que chegamos a essa conclusão em meados do ano passado, decidimos liquidar a maioria dos nossos ativos de risco e nos posicionar para os vários eventos que provavelmente ocorrerão ao longo desta longa estrada até o ajuste cambial e de crédito na China”.

Segundo o investidor, “estamos assistindo ao maior ajuste de desequilíbrio macroeconômico que o mundo jamais viu”.

A visão negativa de Bass está centrada na gigantesca expansão de crédito na China – de acordo com seus números, de US$ 3 trilhões em 2006 para US$ 34 trilhões em 2015, o que corresponde a 340% do PIB. Ele nota que nos piores anos da crise global, o crédito nos Estados Unidos, considerando-se o que está fora do balanço dos bancos e do sistema bancário, atingiu US$ 16,5 trilhões, ou 100% do PIB norte-americano.

O investidor prevê perdas torrenciais: “O sistema chinês é ainda mais precário quando nos damos conta de que, mesmo nos maiores bancos, os empréstimos não são feitos com base na capacidade dos tomadores de repagar; em vez disso, as decisões de empréstimos são decisões políticas feitas pelo Estado”. Nas suas contas, as perdas chegarão a 10% dos ativos do sistema, requerendo uma capitalização de US$ 3,5 trilhões.

Ele escreve que o Fed (Federal Reserve, BC americano) teve que expandir seu balanço (injetar liquidez) em quase US$ 4,5 trilhões para induzir os investidores a capitalizarem o sistema bancários depois de perdas de capital de US$ 650 bilhões. Tomando esse parâmetro, calcula que a China terá que “imprimir” (criar liquidez) de mais de US$ 10 trilhões para resolver seu problema bancário.

Isto, por sua vez, será um fator da grande desvalorização prevista para renminbi, que, segundo Bass, vai resolver o problema de competitividade da China, que foi erodida por uma apreciação da taxa de câmbio real (contra uma cesta representativa de moedas) de 60% desde 2004.

O investidor também chama atenção para outros problemas. As reservas de US$ 3,2 trilhões, afirma, estão aquém do mínimo recomendável pela fórmula do FMI para um país com o tamanho e as características da China – que seria de US$ 2,7 trilhões – quando se descontam investimentos ilíquidos no fundo soberano, capitalizações de outros bancos de fomento e operações de liquidez de curto prazo com bancos. Outro ponto negativo, segundo o gestor do Hayman Capital, são os veículos financeiros chineses que permitem aos bancos contornar os limites oficiais de alavancagem e esconder perdas.

Mas a visão de Bass é contestada pela corrente que vê a situação chinesa com alguma apreensão, mas não antevê rupturas nem desastres. Sem citar o nome do gestor do Hayman Capital ou mesmo do fundo, um relatório do UBS, do economista Tao Wang, dessa segunda-feira, 15/2, contesta ponto a ponto as ideias de Bass sobre a China.

Em relação à suposta supervalorização do renminbi, o UBS observa que o ponto de partida do movimento de apreciação foi de uma posição fortemente desvalorizada, e que a China ganhou produtividade relativamente a seus parceiros no período. Wang nota que em 2015 a China teve um substancial superávit em conta corrente, de quase US$ 300 bilhões ou pouco mais que 2% do PIB, e que a sobrevalorização do renminbi não é mais do que de 5% a 10%.

O UBS tem números diferentes de Bass para o crédito bancário chinês, que era de 290% do PIB no final de 2015, ou, descontando-se reservas no Banco do Povo da China (BC) e o interbancário, 230%. Tirando-se os créditos com o governo, o número cai para 140% do PIB. Os cálculos incluem operações fora do balanço. O analista nota que mesmo 10% de perdas de ativos seriam muito menos em termos absolutos do que no cenário do Hayman Capital. Além disso, os bancos chineses têm muita liquidez na forma de depósitos baratos (para os bancos), graças à alta poupança e ao sistema financeiro pouco desenvolvido. Assim, o UBS prevê um processo gradual de saneamento das perdas de crédito.

Wang nota também que a conta das reservas de US$ 3,2 trilhões não inclui os itens descontados por Bass e que a China, diferentemente dos Estados Unidos, pode capitalizar diretamente bancos, e não precisa injetar montanhas de liquidez para que apenas uma parcela se converta em capital bancário. Ele acrescenta ainda que o governo chinês tem amplo espaço para isso, pois a dívida pública representa apenas 60% do PIB, levando em conta o endividamento dos governos regionais e passivos contingentes. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 17/2/16, quarta-feira.