A chuva e o Copom

Perspectivas hidrológicas melhoram fortemente para 2022, o que pode fazer com que preço da energia caia até o final do ano mais do que mercado ainda prevê.

Fernando Dantas

02 de fevereiro de 2022 | 18h02

A Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) divulgou ontem (31/1, segunda-feira) seu relatório mensal, com boas notícias hidrológicas e implicações importantes para o cenário macroeconômico brasileiro.

Depois de ter chovido muito abaixo da média histórica até setembro de 2020, no último trimestre de 2021 as chuvas no Brasil se aproximaram da média de longo termo – a MLT, a média calculada ao longo de cerca de 90 anos. Houve forte melhora, mas ainda se ficou um pouco abaixo da média de longo prazo no agregado do Sistema Integrado Nacional (SIN).

A notícia ainda melhor é que, em janeiro deste ano, choveu bem acima da média histórica, mais precisamente, 125% da MLT. As chuvas fartas ocorreram em todas as regiões, com exceção do Sul, que passa por uma seca de grandes proporções (que vem levando a revisões expressivas para as safras de alguns produtos este ano). Mas os subsistemas Sudeste/Centro-Oeste, Nordeste e Norte tiveram chuvas bem acima da média histórica.

Como resultado, o nível dos reservatórios mostra uma recomposição bastante significativa. No final de janeiro, os reservatórios de geração de eletricidade do SIN já estavam com quase 49% da capacidade total de armazenamento ocupada. É o maior nível nesse ponto do calendário em quatro anos, incluindo 2022. No mesmo período de 2021, esse número estava em torno de 25%.

Adicionalmente, as projeções da CCEE são de que as chuvas acima da média histórica irão prosseguir em fevereiro, e de março em diante a precipitação ficará mais próxima da média.

A combinação dessa melhoria das chuvas com uma demanda por energia que vem andando de lado, em função da economia quase parada há alguns trimestres, leva a CCEE a apontar que, em abril, no final do período chuvoso, os reservatórios do SIN estarão com 72% de armazenagem (contra 44% em abril do ano passado e 60% em 2020).

Dessa forma, a conjuntura hidrológica tem sido muito favorável, após dez anos de chuvas muito abaixo da média histórica.

Isso, contudo, não significa dizer que não há com o que se preocupar de 2023 em diante, nota Bráulio Borges, pesquisador do FGV-IBRE e economista-sênior da LCA.

As previsões de clima do Banco Mundial, por exemplo, indicam que o Brasil vai continuar perdendo chuvas nos próximos anos, em relação ao regime que predominou anteriormente – reflexo tanto das mudanças climáticas globais como do desmatamento acumulado da floresta amazônica (que quintuplicou desde 2018).

Borges observa, entretanto, que, no horizonte mais curto, de 2022, a generosidade das chuvas é uma boa notícia, com implicações importantes para a política monetária.

“Com essa evolução projetada dos reservatórios, a CCEE aponta que hoje, isto é, em janeiro e fevereiro, já deveríamos estar com a bandeira tarifária na cor verde”, ele diz.

Na prática, acrescenta, desde o final de 2021 e até abril deste ano, por determinação extraordinária, prevalece a bandeira “escassez hídrica”. Essa bandeira mantém a tarifa no topo para poder compensar as concessionárias de distribuição pelo uso (que já se reduziu desde dezembro) de termoelétricas muito caras, para garantir o suprimento de energia.

De qualquer forma, analisa Borges, o cenário mais provável é que 2022 termine com bandeira verde.

“E isso é algo que não está no preço do mercado”, alerta o analista.

No Boletim pré-Copom que o BC circulou em dezembro do ano passado junto aos analistas de mercado, a perspectiva da maioria dos agentes era de que 2022 terminasse com bandeira vermelha ( 1 ou 2), seguida da amarela.

“Se a gente termina o ano com bandeira verde, isso significa tirar quase 0,5 ponto porcentual do IPCA de 2022”, estima Borges. O que, na sua opinião, facilita o trabalho do BC não só relativamente a este ano, mas também em 2023, via inércia e indexação.

Ainda assim, ressalva Borges, “temos um fantasma nos assombrando nos próximos anos”. Ele se refere aos R$ 140 bilhões dos custos associados à crise hídrica de 2021: leilões de reserva realizados pelo governo para contratar térmicas emergenciais extremamente caras, “jabutis” embutidos no processo de privatização da Eletrobrás (contratação de térmicas a gás em determinados locais), investimentos em outros combustíveis de origem fóssil.

“É uma conta salgada para os próximos anos, que não está totalmente equacionada”, comenta.

Desde 2012, quando as chuvas passaram a se situar persistentemente abaixo das médias históricas, o IPCA da energia elétrica residencial subiu cerca de 11% ao ano, quase o dobro dos 6% do IPCA total.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 1/2/2022, terça-feira.