A conversão do BC é para valer?

Fernando Dantas

15 de agosto de 2013 | 16h32

O diretor de Política Econômica do Banco Central (BC), Carlos Hamilton, parece ter sido escalado internamente para o papel de “falcão” do Comitê de Política Monetária (Copom). Ou pelo menos para ser o arauto de novas rodadas de endurecimento no discurso, sendo depois seguido pela chancela do presidente da instituição, Alexandre Tombini.

No final de abril, num seminário em São Paulo, no dia da divulgação da ata do Copom, Hamilton fez um discurso tão duro que alguns dos presentes especularam se ele não estaria “de saída” do BC. Nos dias subsequentes, no entanto, o tom foi endossado por Tombini. Ontem, o diretor de Política Econômica voltou à carga. Resta ver se, de novo, o presidente do BC vai chancelar a mensagem.

Com as expectativas de crescimento em 2013 e 2014 continuando a cair, de níveis já bisonhos, alguém poderia especular que o Comitê de Política Monetária (Copom) estaria reavaliando para baixo o seu “orçamento” de alta da Selic.

Mas na segunda-feira (12/8/13), na divulgação do Boletim Regional do BC em Belém, e, posteriormente, em palestra na Universidade da Amazônia, Hamilton só emitiu sinais de determinação anti-inflacionária do BC.

Ele disse que a inflação de quase zero em julho foi “um ponto fora da curva”, e que o índice vai subir até o fim do ano. Para Hamilton, inflação próxima de zero no Brasil “é a exceção, e não a regra”. Todo mundo sabe disso, mas que ele tenha escolhido essa verdade para destacar é significativo.

Mais polemicamente, Hamilton afirmou que a política fiscal é expansionista, contrariando declarações do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que a classifica como neutra.

O diretor ainda classificou como “ilusão” a ideia de que não haverá repasse da desvalorização cambial para a inflação, e disse que o instrumento mais apropriado para lidar com a taxa de inflação são os juros.

Como não poderia deixar de ser, as palavras de Hamilton tiveram repercussão. As declarações do diretor fortaleceram a visão de uma corrente do mercado de que, com alta da inflação (e seus efeitos sobre a popularidade presidencial) e o agravamento da situação externa a partir do segundo trimestre, o governo permitiu que o BC recuperasse parte da sua autonomia. E, com isso, os membros do Copom vêm se esforçando para reconstruir a sua credibilidade anti-inflacionária.

Num relatório divulgado na terça-feira (13/8), Tony Volpon, chefe de pesquisa de mercados emergentes para as Américas do Nomura, em Nova York, escreveu que “acreditamos que o comentário de Hamilton terá bastante efeito para reforçar a credibilidade do Banco Central, e para definitivamente afastar qualquer chance de um fim próximo do atual ciclo de aperto da política monetária”.

Independentemente do efeito das declarações de Hamilton nas expectativas do tamanho e da duração do atual ciclo, é interessante ouvir os argumentos de um reconhecido cético em relação à recuperação da credibilidade do Copom, o ex-diretor do BC Alexandre Schwartsman.

O atual consultor diz não estar convencido de que o BC tenha recuperado sua autonomia. “O BC pode fazer o que quiser, desde que não passe de certos limites – isto me lembra a famosa frase do Henry Ford em relação ao Ford T, de que o comprador poderia escolher qualquer cor, desde que fosse preta”, ele diz.

Para Schwartsman, “o BC tem deixado a inflação escapar sistematicamente da meta, que foi perdida em 2011, 2012 e 2013; eles tiveram a oportunidade de fazer a coisa certa, e insistiram na errada, o que me leva a desconfiar dessa conversão súbita, como se fosse a epifania na estrada para Damasco (referência à conversão de São Paulo)”.

O economista nota que, no Relatório de Inflação de junho, a trajetória de câmbio do cenário de referência (que supõe câmbio e Selic constantes) e no cenário de mercado (com as projeções de mercado para aquelas variáveis) era muito próxima. Assim, foi possível ver qual o efeito que uma Selic de aproximadamente 0,75 ponto porcentual a mais no cenário de mercado tinha em termos de reduzir a inflação em 2014 (no próprio cenário de mercado) em relação ao cenário de referência.

A diferença era de apenas 0,2 ponto porcentual a menos na inflação de 2014, o que fez com que Schwartsman deduzisse que o próprio modelo do BC indicaria que a Selic teria de ir para algo como 11,25% ou 11,5% para que a inflação no próximo ano fosse de 4,5%, o centro da meta.

Segundo o consultor, os seus próprios cálculos apontam uma dose maior, com a taxa básica chegando a 12% ou mais. Mas o seu ponto é que, tomando-se em junho o que o próprio modelo do BC indicaria ser necessário para trazer a inflação para o centro da meta em 2014, os atuais “orçamentos” de alta da Selic projetados pelo mercado, que ficam de maneira geral no dígito único, são claramente insuficientes.

Schwarstman não tem paciência para a ideia de que o Copom poderia tentar reduzir a inflação em 2014, mas ainda sem trazê-la para o centro da meta, para evitar sacrificar demais a atividade econômica já combalida. “Essa história eu já ouvi em 2011, 2012 e 2013”, ele rebate.

O economista nota que, se a ideia fosse trazer a inflação para meta em 2015, teria que ser realizado, de preferência, um forte aperto monetário já a partir do próximo anom, o que ele acha implausível por causa das eleições presidenciais. Assim, a volta ao centro da meta iria novamente ser adiada. Para Schwartsman, já se configurou um padrão com atual diretoria de postergação contínua da busca do centro da meta, e o que não falta são motivos que vão surgindo a cada momento.

“Parece com o aviso do português da padaria, de que ‘fiado só amanhã’ – no caso do atual BC, porém, é ‘centro da meta só no ano que vem’”, ele ironiza.

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast. E-mail: fernando.dantas@estadao.com

Este artigo foi originalmente publicado na AE-News/Broadcast

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