A corda bamba de Bolsonaro

Presidente tem uma travessia política e econômica extremamente difícil pela frente (ainda mais com Lula livre), mas prossegue com a confiança dos que se julgam predestinados.

Fernando Dantas

09 de novembro de 2019 | 19h32

O governo Bolsonaro atravessa uma longa corda bamba com a peculiaridade de que o equilibrista parece ignorar o risco e caminha com a segurança (cega, no caso) de quem passeia na orla da praia.

A popularidade presidencial caiu rápido, mas parece resistir num patamar em que 40% da população rejeita seu governo, 30% aprova e 30% não está lá nem cá, considerando-o regular.

Uma pesquisa recente do portal Jota/Ibpad, entretanto, realizada por telefone com 1042 pessoas em 304 municípios, entre 29 de outubro e 2 de novembro, mostra bom/ótimo de 30,9%, ruim e péssimo de 42,1% e regular de 23%.  A soma de ótimo, bom e regular dá abaixo de 55%, rompendo o piso de 60% dos eleitores que toleram ou gostam do governo Bolsonaro.

É cedo para dizer que a popularidade presidencial retomou uma trajetória de queda. A última pesquisa XP Ipespe, de 9 a 11 de outubro, até registrou ligeira melhora: 38% de ruim/péssimo, e 33% de ótimo/bom. Numa pergunta sobre a expectativa para o restante do governo Bolsonaro, na mesma pesquisa, 46% esperam que seja ótimo/bom, 31% ruim/péssimo e 19% regular – também houve alguma melhora ante a consulta anterior.

De qualquer forma, é um nível no mínimo frágil de popularidade presidencial, num contexto mundial e especialmente regional (América Latina) em que têm surgido fortes movimentos populares contra governos.

Não há dúvida de que a radicalização e agressividade permanentes de Bolsonaro, alguns dos seus ministros e dos seus filhos ajudaram a coalescer a grande fatia de 40% dos eleitores que desgosta profundamente do atual governo.

Por outro lado, é possível que o cálculo do núcleo bolsonarista seja o de que a polarização reforça o grupo de apoiadores incondicionais do presidente, um subgrupo dos 30% de bons/ótimos do qual não se conhece exatamente o tamanho. E essa base militante e fiel talvez seja vista como um trunfo para preservar o poder (e até o mandato) do presidente em tempos hiperconflagrados.

Mas é aí que entra a economia. Apenas uma minoria fanática, de algo entre 15% e 25% do eleitorado, não é capaz de sustentar a governabilidade presidencial por muito tempo. É preciso que a melhora da economia venha a reforçar o campo bolsonarista em 2020, um ano eleitoral e no qual o benefício da dúvida que se dá a novos presidentes provavelmente já terá sido esgotado.

Há sinais de vida econômica e, mais do que isso, indicadores macro que no passado recente seriam augúrios mais do que positivos para uma retomada robusta da atividade: setor externo equilibrado, juros superbaixos para padrões históricos, câmbio competitivo, baixa inflação.

O problema é saber se alguma coisa mudou na relação entre esses indicadores e a atividade econômica. No mundo, e especialmente nas nações ricas, mudou. Juros baixíssimos convivem com economia em marcha lenta, no que tem sido chamado de estagnação secular.

Em relação ao Brasil, o problema mais claro é a falta que faz, para a retomada nacional, de um ambiente externo mais exuberante, com crescimento vigoroso do comércio mundial e valorização de commodities – ingredientes importantes em outras recuperações brasileiras.

É verdade que os juros baixos internacionais ajudam os juros domésticos a caírem, o que é bom tanto para estimular a atividade quanto para melhorar os resultados fiscais. O problema é que a primeira dessas vantagens, impulso à demanda, está demorando muito a se materializar.

O fiasco dos leilões da cessão onerosa e do pré-sal está sendo dissecado em mil e uma análises. Mas sejam quais forem as causas regulatórias e institucionais – isto é, o que o governo teria feito de errado –, no mínimo é possível dizer que o mundo não pareceu muito interessado em apostar no Brasil.

Uma recuperação com vetores apenas domésticos provavelmente será mais lenta e suscetível a descarrilamentos.

Enquanto isso, vai sendo testada a paciência do eleitorado que ainda não se cristalizou nas posições antagônicas de bolsonarista e antibolsonarista.

Em liberdade, Lula (a coluna foi escrita antes da libertação de Lula) terá ao menos a chance de, com uma estratégia populista astuta de atacar as muitas restrições de direitos e benefícios dos pacotes econômicos de Paulo Guedes, minar a confiança, frear a retomada e insuflar a rejeição ao governo.

No Congresso, um presidente já sem o capital de início de mandato, e com popularidade duvidosa, pode ser alvo mais fácil e frequente de manobras para diluir ou bloquear suas propostas econômicas – o que também dilui e bloqueia o efeito positivo que a aprovação delas poderia ter na economia.

A terra prometida para Bolsonaro é chegar vivo politicamente a um ritmo de crescimento sustentável de no mínimo 2,5% ao ano, que tenha efeitos positivos sólidos no emprego e na renda, e que a maioria do eleitorado ache que não vale a pena abortar com mais turbulência política.

Não é nada fácil ou garantida essa travessia. Mas o presidente parece não estar nem aí para os riscos, e continua a marchar com a convicção dos que se julgam predestinados.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broacast em 8/11/19, sexta-feira.