A crescente fatia do lucro no PIB

Trabalho de economista de Chicago indica que tanto participação do trabalho como do capital caíram na renda nacional americana. E o que subiu foi a parcela do lucro (que é diferente da participação do capital). Um possível vilão? Concentração e redução da competição.

Fernando Dantas

17 Abril 2018 | 16h26

O declínio da participação do trabalho no PIB e, portanto, na renda nacional, é um fenômeno amplamente documentado na maior parte do mundo, como destaque para os Estados Unidos e os países ricos. A suposição básica é de que a esse recuo correspondeu um aumento da mesma magnitude da fatia do capital no PIB.

Agora, porém, o economista Simcha Barkay, da Universidade de Chicago e próximo ao conhecido Luigi Zingales, também de Chicago, está afirmando em recente estudo acadêmico que a queda do capital no valor adicionado no PIB foi ainda maior do que a do trabalho. E o que teria crescido, portanto? Na verdade, cresceu a fatia dos lucros, que é diferente da parcela do capital. A fatia do capital é dada pela taxa de retorno requerida e o valor do estoque de capital. O que está além disso é a fatia do lucro.

Zingales é célebre pela distinção entre políticas econômicas pró-mercado, que defende, e que têm viés de competição e são favoráveis ao consumidor; e políticas “pró-business”, ou “pró-empresa”, que têm viés de restrição à competição e são prejudiciais ao consumidor e garantem rendas abusivas aos detentores de capital.

Segundo o trabalho de Barkay, a fatia do lucro no PIB, que era considerada insignificante por ser muito pequena, multiplicou-se diversas vezes, e atingiu mais de US$ 1,35 trilhão em 2014 (16% do PIB), ou US$ 17 mil por trabalhador. Enquanto isso, a fatia do trabalho recuou 10% e a do capital, 30%. Segundo Barkay, a provável principal causa do aumento dos lucros, às custas da fatia do trabalho e do capital, é a redução da competição.

O economista desenvolveu um modelo econométrico que indica que, caso o nível de competição em 2014 fosse semelhante ao de 1984, o PIB seria 10% maior, os salários 24% superiores e o investimento 19% maior.

Curiosamente, a ideia é que, com mais competição, os preços cairiam, e, como se sabe, a inflação nos Estados Unidos e em outros países ricos já é muito baixa, e há até pouco tempo ameaçava ir para o terreno deflacionário. A conclusão parece bater de frente também com a tese de que a internet reduziu o poder de mercado dos ofertantes de bens e serviços ao introduzir uma maior comparabilidade e serviços como Uber e Airbnb.

De qualquer forma, existe de fato hoje em dia toda uma discussão sobre por que as margens e os lucros das empresas cresceram tanto. Alguns suspeitos são a simples concentração, que tem como uma das causas a onda de fusões e aquisições (restaria explicar por que isto ocorre); e o aumento da regulação.

Fernando Veloso, economista do Ibre/FGV, nota que, na discussão sobre o “paradoxo da produtividade” – que cresce pouco apesar da revolução da informática e da internet –, uma das possíveis explicações indicaria que o aumento da produtividade mais rápido, associado à tecnologia, estaria de certa forma empoçado em empresas líderes como Google e Amazon.

Estas, por sua vez, têm um poder sobre dados pessoais que pode permitir que se isolem da competição. E tudo isto ocorre no pano de fundo de uma perda de dinamismo na economia americana, refletida na queda na taxa de criação de empresas e no fluxo de criação e destruição de empregos.

São discussões ainda com muito mais perguntas do que respostas, mas certamente são um tema fascinante e com enormes implicações, e que deve atrair cada vez mais a atenção dos economistas. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 11/4/18, quarta-feira.