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A crise financeira e a extrema-direita

Estudo de economistas alemães indica que crises financeiras pioram governabilidade, estimulam fragmentação partidária e agitação nas ruas, e aumentam cacife eleitoral da extrema-direita. Mas pesquisa limitou-se aos países ricos.

Fernando Dantas

24 de novembro de 2015 | 16h35

As consequências da grande crise financeira global levaram ao poder o Syriza, partido radical de esquerda na Grécia, e criaram as condições propícias ao surgimento do Podemos na Espanha, agremiação com o mesmo teor ideológico. Esses movimentos trouxeram esperança a militantes de esquerda no mundo todo de que a grande crise do capitalismo tivesse finalmente aberto uma oportunidade para a volta de uma esquerda revigorada, pronta a lutar contra o que se percebe como uma hegemonia do pensamento conservador.

Um recente estudo dos economistas Manuel Funke (Universidade Livre de Berlim), Moritz Schularick (Universidade de Bonn) e Christoph Trebesch (Universidade de Munique) mostra, entretanto, que no mundo desenvolvido quem tende a ganhar mais com as grandes crises financeiras é a extrema-direita.

Há atualmente um claro fortalecimento de partidos de extrema-direita em diversos países da Europa, e a atitude mais corrente é associá-lo com a crise de refugiados da guerra civil síria e de outros países problemáticos no Oriente Médio e na África. O estudo de Funke, Schularick e Trebesch indica, porém, que as consequências políticas da grande crise global também podem estar em ação.

Os pesquisadores compilaram um arquivo de 827 eleições parlamentares no período 1870-2014 em 20 países desenvolvidos. Em seguida, calcularam as votações para partidos extremistas de esquerda e direita. Eles também contabilizaram os votos governistas, incluindo o partido no poder e seus aliados, e os votos na oposição. Os economistas mediram ainda os resultados das eleições de acordo com dois índices de fragmentação partidária – um deles é a simples contagem dos partidos, e o outro tem uma metodologia mais sofisticada. E, finalmente, a pesquisa contabilizou, para a maior parte possível daquele período, o que os autores chamam de “protestos de rua”, o que inclui greves gerais, motins violentos e demonstrações contra o governo.

Na outra vertente, os economistas usaram bases de dados de diversos estudos acadêmicos, incluindo o conhecido trabalho de Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, para listar e datar crises econômicas e financeiras e recessões.

A metodologia estatística utilizada para combinar esses dados indica que a política sofre uma forte guinada à direita depois de crises financeiras, o que ocorreu tanto antes quanto depois da Segunda Guerra Mundial. O padrão se mantém robusto quando se controla para condições econômicas e diferentes sistemas eleitorais.

No total da amostra, o voto na extrema-direita cresceu em média cinco pontos porcentuais nos cinco anos após as crises financeiras, quando comparado com o voto nos cinco anos precedentes.

Os autores rememoram fatos históricos por trás desse número. A aliança fascista de Mussolini conquistou 19,1% dos votos em 1921 e 65% em 1925, beneficiada por uma crise bancária na Itália no início dos anos 20 e pela recessão global depois da Primeira Guerra Mundial. Na Alemanha, os nazistas obtiveram 18,3% dos votos em 1930, 30% em 1932 e mais de 40% em março de 1933, quando os impactos da Grande Depressão estavam no seu auge. E houve avanço da extrema-direita nos anos 30 também na Bélgica, Dinamarca, Finlândia, Espanha e Suíça.

Já após a grande crise global (que os autores preferem datar como 2007-2008), partidos de extrema-direita e o que chamam de “populistas de direita” mais que dobraram sua fatia de votos em vários países ricos, como França, Reino Unido, Finlândia, Holanda, Portugal e Japão.

Os Democratas, da Suécia, saíram de 2,9% em 2006 para 5,7% em 2010. O Partido pela Liberdade, da Holanda, saltou de 5,9% em 2006 para 15,5% em 2010. A Frente Nacional, na França, chegou a 13,6% em 2011, comparado a 4,3% em 2006. Já os “True Finns”, da Finlândia, dispararam de 4,1% em 2007 para 19,1% em 2011.

Mas esse fenômeno não se limita a eventos de enorme magnitude, como a Grande Depressão e a grande crise global. Ele também se repete depois de crises financeiras localizadas. Na Noruega, o Partido Norueguês do Progresso, da direita populista, obteve apenas 3,7% dos votos em 1985. Em 1989, na primeira eleição após uma crise financeira em 1987, o partido recebeu 13% dos votos e se tornou a terceira força política norueguesa.

Outra importante conclusão do trabalho é que governar fica bem mais difícil depois de crises financeiras, porque as maiorias governistas tendem a encolher e a fragmentação partidária tende a aumentar. Além disso, os “protestos de rua” crescem, dobrando em média nos cinco anos pós-crise, comparados com os cinco anos anteriores.

Os autores também testaram esses efeitos na sequência de recessões normais ou recessões muito severas, mas sem crises financeiras. A conclusão é que de fato as crises financeiras produzem muito mais instabilidade econômica do que outros tipos de problemas econômicos. Eles especulam sobre até que ponto isto poderia derivar do fato de que crises financeiras são percebidas como eventos “indesculpáveis”, fruto de falhas de gestão com implicações morais e de favoritismos, enquanto recessões sem crise financeira seriam vistas mais como involuntárias, associadas a choques como queda do preço do petróleo ou guerras. E as crises financeiras também envolvem frequentemente operações de salvação de bancos, que são antipopulares.

Uma boa notícia do trabalho, finalmente, é que todos os efeitos descritos acima tendem a se dissipar com o tempo, e a maioria já não é significativa estatisticamente dez anos após as crises.

Uma pergunta interessante é se o mesmo padrão encontrado por Funke, Schularick e Trebesch seria válido para os países emergentes, nos quais (como na América Latina) a força do populismo de esquerda é no mínimo igual, e possivelmente maior, do que a do populismo de direita. Mas como a mostra dos autores só inclui países ricos (os de menor renda per capita são Grécia e Portugal), não é possível tirar nenhuma conclusão sobre a realidade latino-americana e brasileira. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 23/11/15, segunda-feira.

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