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A débil demanda dos países ricos

Trabalho acadêmico mostra que metade da forte queda do crescimento potencial da economia americana após 2000 foi devida a questões de demanda, e não de oferta. Autor trabalha como conceito de "super histerese".

Fernando Dantas

21 de outubro de 2020 | 11h05

Uma das grandes questões econômicas da nossa época é a desaceleração do crescimento das economias mais ricas do mundo. Recém-publicado trabalho do economista Nicolò Maffei-Faccioli, da Universitat Autònoma de Barcelona e da Università Bocconi (Milão), mostra que fatores de demanda explicam metade da desaceleração no PIB potencial dos Estados Unidos desde o ano 2000.

Esses fatores de demanda são chamados de “super histerese”. Como explica o economista Samuel Pessoa, do Ibre/FGV e do Julius Baer Family Office, o termo “histerese” é habitualmente usado em economia quando a demanda afeta duradouramente o nível do produto.

Dessa forma, uma recessão cíclica, tipicamente causada pela demanda, leva a uma queda do produto que não é compensada por um crescimento mais forte em seguida. O país fica permanentemente (ou muito duradouramente) com um nível de produto potencial mais baixo do que poderia ter a cada momento.

Pessoas desalentadas pelo desemprego de longa duração, que saem da força de trabalho e reduzem a taxa de participação, são um exemplo desse tipo de efeito.

A super histerese vai além, e significa que um longo período de carência de demanda pode fazer não só que o nível do produto, mas também a taxa de crescimento potencial do PIB caia permanentemente.

Como descreve Maffei-Faccioli na introdução do seu paper, desde a Grande Recessão (2007 a 2009, o período em que houve a grande crise financeira global), o crescimento norte-americano foi excepcionalmente baixo. O aumento da renda per capita real entre 2010 e 2019 foi de uma média de 1,3% ao ano, bem abaixo do nível de 2% que prevalecia anteriormente.

Há um série de possíveis explicações para esse fenômeno, pela oferta e pela demanda. Algumas dessas hipóteses voltam-se a explicar um período de baixo crescimento que começou até antes da crise financeira global.

As explicações pelo lado da oferta se centram em duas tendências anteriores à Grande Recessão: crescimento mais lento da produtividade      e queda da taxa de participação. Fatores tecnológicos, demográficos e de organização de negócios poderiam explicar essas tendências.

Pelo lado da demanda, algumas explicações para a desaceleração do crescimento potencial podem ser redução de investimentos que geram produtividade (por causa da demanda fraca), queda de investimento em ativos intangíveis e constrangimentos financeiros.

O paper usou métodos econométricos para, primeiro, traçar a evolução do produto potencial nas últimas décadas. E, em segundo lugar, mostrar o peso relativo dos fatores da oferta e da demanda nessa evolução (pesos esses que naturalmente podem variar em diferentes períodos).

Para separar efeitos de oferta e de demanda, o trabalho também mapeou a tendência da inflação no período. Quando o PIB e a inflação andam juntos, é a demanda agindo. Quando andam em direções opostas, é a oferta.

O autor encontrou que a taxa de crescimento potencial do PIB per capita norte-americano declinou 1,16 ponto porcentual entre 1959 e 2019. Houve queda nos anos 60 e 70, depois crescimento até 2000 (especialmente nos anos 90), e queda pronunciada nos últimos 20 anos, para 1,2% ao ano.

Os fatores de oferta foram inteiramente responsáveis pela desaceleração dos 60/70 e pela aceleração nos anos 90, mas metade do declínio a partir de 2000 é explicado pela demanda.

Dois fenômenos ligados a inflação/deflação de difícil explicação ganham uma luz com esse trabalho, segundo Maffei-Faccioli.

O primeiro é por que não houve deflação na esteira da grande crise global. Aqui, a explicação são choques negativos de oferta. O segundo “puzzle” (quebra-cabeça em inglês) é por que a inflação não subiu nos últimos anos, com o mercado de trabalho (pré-pandemia) aquecidíssimo. Dessa vez, a explicação vem de insuficiência de demanda.

O autor também analisou países europeus e encontrou as mesmas pegadas da super histerese reduzindo o crescimento econômico nas últimas décadas.

Pessôa nota que as recentes mudanças no arcabouço de decisões de política monetária do Fed, BC norte-americano, de certa forma podem ser relacionadas com achados como o de Maffei-Faccioli.

O Fed passou a perseguir uma meta média de inflação, compensando anos abaixo da meta com a tolerância com anos acima. E, em relação ao mercado de trabalho, passa a ter um postura assimétrica. Se o desemprego estiver acima do nível de desequilíbrio, isso indica flexibilização da política monetária, mas, se estiver abaixo, não indica aperto.

Tanto num caso como no outro, há compatibilidade com a ideia de que demanda fraca e mercado de trabalho debilitado podem ter efeitos de longo prazo no produto potencial e, portanto, precisam ser combatidos e compensados – mesmo assumindo maior risco inflacionário.

Pessoa faz duas ressalvas quanto à intepretação do trabalho de Maffei-Faccioli. A primeira é que é preciso verificar a qualidade e a confiabilidade da técnica econométrica, que é tarefa bastante especializada de econometristas.

A segunda é o cuidado em não extrapolar automaticamente um resultado do mundo rico, que tem sinais de insuficiência de demanda e um quadro de baixa inflação, baixo crescimento e baixos juros que já se conta em décadas, para países latino-americanos como o Brasil. No caso brasileiro, o excesso de demanda foi a tônica até poucos anos atrás, e o período de hiato de produto muito aberto se conta em anos, e não em décadas.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 20/10/2020, terça-feira.

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