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A decisão sobre Lula e o mercado

Veredito do TRF-4 em 24/1, segunda instância do julgamento de Lula, já está mexendo com o mercado e poderá mexer ainda mais, a depender do resultado.

Fernando Dantas

07 de janeiro de 2018 | 21h18

Tanto a produção industrial de novembro quanto os dados da Anfavea de dezembro reforçaram o cenário majoritário do mercado de retomada em ritmo moderado, mas firme. Pode ser que o crescimento do PIB em 2017 acabe ligeiramente acima de 1%, e o de 2018 em torno de 3%. A economia está clareando e o céu se desanuviando, com exceção de um ainda ameaçador cúmulo-nimbo no horizonte, que mistura situação fiscal, incerteza política e, em menor grau, o temor de alguma turbulência internacional.

Destes três últimos fatores, aquele que mais deve “fazer preço” em 2018 são as eleições. Uma questão relevante é a de saber quando efetivamente a campanha e as pesquisas vão assumir protagonismo nas análises e decisões dos participantes do mercado financeiro.

Na verdade, na visão de vários analistas, o julgamento do recurso em segunda instância de Lula no dia 24 de janeiro já está fazendo preço, e ajuda a explicar o bom humor com que o mercado iniciou o ano. Mas não se deve exagerar em demasia esse fator: a exuberância dos ativos neste começo de 2018 é um fenômeno global.

De qualquer forma, possivelmente há, embutido nos preços dos ativos brasileiros, uma probabilidade relativamente alta de que Lula perca por 3 a zero no TRF-4. Se esta expectativa de fato se confirmar, na visão de um experiente gestor, ainda existe um gás adicional a ser transmitido ao mercado.

A questão legal sobre a possibilidade de Lula se candidatar ou não – e sobre até quando a candidatura pode se sustentar – é complexa, mas se assume que, quanto maior o placar contra ele, mais inviabilizadas ficam as chances de o ex-presidente disputar a eleição.

A fonte mencionada acima diz que uma derrota por três a zero de Lula no TRF-4 seria bem vinda pelo mercado não apenas por praticamente tirar do horizonte a candidatura do petista (o que, ao contrário do que dizem alguns, não acontece por “demofobia” das elites, mas sim porque o ex-presidente petista em seu discurso atual não somente promete reviver as políticas econômicas que causaram a desastrosa recessão que durou até o final de 2016, como não faz nenhum mea culpa pelos escândalos de corrupção que, entre outras coisas, provocaram o pior abalo da história da Petrobrás).

Outros fatores positivos para a economia que poderiam advir do três a zero, na visão do mercado, seriam uma chance melhor de se viabilizar uma candidatura centrista de peso e até – o que exige muita dose de esperança – de se aprovar alguma reforma da Previdência ainda em 2018.

A lógica desse raciocínio é que políticos do Centrão e do baixo clero tentados a debandar para o lado de Lula – especialmente os do Nordeste, onde o ex-presidente é extremamente popular – naturalmente são mais recalcitrantes em relação a rumar para uma candidatura de centro ou a votar pela reforma da Previdência. Com Lula fora do jogo, essa turma pode achar que talvez o apoio do dinheiro e da máquina do governo sejam o melhor caminho para a reeleição ou para viabilizar outros projetos políticos.

É claro que Lula ainda terá força para inflar uma candidatura petista como, por exemplo, a de Jaques Wagner, um político que tem o bônus da carreira na Bahia, Estado do Nordeste. Mas a força de Lula candidato seria provavelmente muito maior, e muito mais sedutora para o Centrão e o baixo clero, do que a de uma candidatura apoiada por Lula.

Por outro lado, se o julgamento da segunda instância terminar em 2 a 1 contra a Lula, resultado com consequências eleitorais menos claras, isto deve representar um jato de água fria no mercado, que pode levar a alguma correção. Já uma vitória surpreendente de Lula na segunda instância teria tudo para ser um choque negativo bastante substancial para os ativos brasileiros.

Passada a decisão do TRF-4, a eleição progressivamente dominará as atenções do mercado, mas o problema é que a capacidade de mensurar as probabilidades da questão crucial – o candidato eleito dará continuidade à política econômica racional ou vai desembestar em populismo? – pode permanecer mínima por vários meses.

A razão é que, fora os fatos de que Lula, se competir, é o grande favorito e Bolsonaro vem em segundo lugar, a eleição ainda parece extremamente indefinida – e a principal lacuna é justamente qual será (ou quais serão) o tal candidato de centro que daria continuidade à atual política econômica.

A neblina política é tão espessa que alguns imaginam que o mercado possa continuar embalado pela solidez da retomada e pela bonomia do ambiente externo no primeiro semestre, enquanto não seja possível equacionar minimamente o risco eleitoral. Especialmente, claro, se houver uma derrota acachapante de Lula na segunda instância.

A prudência, entretanto, recomenda considerar que uma incerteza sobre uma questão de tamanha magnitude possa mexer com os nervos do mercado em prazo bem mais curto. O que está em jogo é basicamente se a atual retomada poderá ser o início de um ciclo positivo sustentável para a economia brasileira, ou se o País vai voltar para uma situação semelhante ao dos piores momentos de turbulência das quatro décadas perdidas consecutivas desde 1980. Essa dúvida atroz pesará mais ainda no mercado se um resultado intermediário no TRF-4 for interpretado como ainda dando gás à candidatura de Lula, ou se a maioria da corte reverter a condenação em primeira instância do ex-presidente. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 5/1/17, sexta-feira.

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