A desaceleração global e o Brasil

Rearrumação da casa macroeconômica no Brasil e início da faxina fiscal, com a reforma da Previdência, devem dar ao País uma capacidade rara em nossa história: a de poder combater uma eventual piora grave no cenário externo com mais cortes de juros.

Fernando Dantas

08 de agosto de 2019 | 18h43

O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, comentou hoje de manhã a redução “bastante grande” das previsões de crescimento da economia mundial, como reportado por Altamiro Junior e Bárbara Nascimento, da Agência Estado.

A desaceleração global é o pano de fundo de agitações nos mercados globais que vêm se desenrolando desde 2018, mas recentemente o agravamento da guerra comercial entre Estados Unidos e China adicionou mais combustível à tensão.

Um reconhecido analista, com vasta experiência no setor privado e público, esquematiza os fatos que trouxeram a economia global até o presente momento de forma simples.

O ciclo de expansão mundial, que começou lentamente depois da grande crise financeira de 2018 e 2019, acelerou-se em 2016 e 2017, a fase do “crescimento sincronizado”, e chegou a um pico na virada de 2017 para 2018.

A partir daí, a desaceleração atingiu a Europa e a China em 2018, e chegou aos Estados Unidos em 2019.

Os principais BCs globais, que até a recente desaceleração vinham tentando “normalizar” suas políticas monetárias convencional e não convencional, no sentido de gradativamente torná-las menos estimulativas, viraram a chave.

A ideia, desde o fim do ano passado, tornando-se mais explícita nos Estados Unidos em 2019, passou a ser a de mitigar a intensidade da desaceleração, no sentido de gerenciar um “pouso suave”. Simplificadamente, estimular voltou à agenda dos BCs.

Em 31 de julho, o Fed, BC americano, cortou os Fed Funds, seu juro básico, em 0,25 ponto porcentual, para o intervalo entre 2% e 2,25% – o primeiro movimento para baixo da taxa em mais de uma década.

Entretanto, os grandes BCs foram atingidos em cheio, em plena sintonia fina do pouso suave, pelo choque provocado por Trump a partir de maio, quando o presidente americano resolveu intensificar sua ofensiva na guerra comercial com a China.

Há uma semana, Trump anunciou mais tarifas para produtos chineses e, na segunda-feira, os chineses reagiram, combinando uma desvalorização diária maior da sua moeda semiadministrada (que foi para mais de 7 renminbis por dólar) com declarações de que o movimento estava ligado à escalada protecionista americana.

Logo em seguida, a China recuou na retórica, mas os Estados Unidos aproveitaram a instância inicial para classificar o rival asiático como manipulador cambial.

Evidentemente, mais guerra comercial significa menos comércio mundial que significa menos crescimento global. Trump conseguiu tornar a tarefa dos BCs de gerir um pouso suave, evitando uma recessão mundial, bem mais difícil.

O alarme se espalhou e mais BCs entraram na temporada de cortes de taxa básicas, como Nova Zelândia, Filipinas e Brasil.

Mas qual o impacto de tudo isso na economia brasileira?

O analista mencionado acima vê perspectivas binárias. O cenário bom é aquele em que os grandes BCs, mesmo com as perturbações de Trump, conseguem realizar o pouso suave. A economia global cresce menos, mas não entra em recessão e há abundância de liquidez. O Brasil, com juros ineditamente baixos, segue em sua retomada e quem sabe até atinge um ritmo mais aceitável.

O cenário ruim é aquele em que os BCs não dão conta do recado e há uma recessão mundial. Neste caso, há mais restrições ao crescimento no Brasil, mesmo levando em conta que o País é pouco aberto e o comércio internacional tem menos impacto do que em outras economias.

A recessão global também pode aumentar a aversão a risco, levando a intensificação do fenômeno caracterizado hoje por Campos Neto com a seguinte fórmula: “Há liquidez, mas esta liquidez está bastante seletiva”.

Se isso ocorrer, mesmo com a liquidez abundante (que deve perdurar no cenário negativo), países com fragilidades macroeconômicas mais graves podem ser forçados a elevar juros, ainda que a economia afunde.

A grande questão, segundo o analista, é se o Brasil poderá reagir a uma eventual desaceleração global mais aguda como a maioria saudável dos países, isto é, reduzindo juros (mesmo se o câmbio se depreciar).

Como o Brasil está com inflação baixa, BC em fase de alta credibilidade, setor externo sólido e os graves problemas fiscais começam a ser atacados de forma mais consistente (com a reforma da Previdência), ele acha que, sim, o Brasil deve ser capaz de usar política monetária anticíclica se o quadro externo se agravar.

Curiosamente, isso significa, na sua visão, que a Selic pode terminar o ano até abaixo dos 5,5% ou 5% do cenário bom, caso ocorra o cenário ruim.

De qualquer forma, a prescrição de política econômica é evidente: acelerar a agenda de reformas econômicas pós-Previdência, o que possibilitará ao Brasil navegar melhor no caso do cenário de desaceleração aguda ou recessão global, ou crescer de forma mais rápida se houver um pouso suave.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 8/8/19, quinta-feira.

Tendências: