A difícil situação do BC em ano eleitoral

Fernando Dantas

28 de março de 2014 | 14h12

“O Banco Central está começando a se render à realidade, e a realidade é dura”, comentou um experiente analista de política monetária sobre o Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de março, divulgado ontem (quinta-feira, 27/3/14).

O efeito do RTI foi o de imediatamente reforçar as previsões de que aumentos de 0,25 ponto percentual da Selic (já que o Copom baixou o ritmo para este nível na última reunião) podem se prolongar mais do que se pensava anteriormente. O mercado agora coloca em sérias dúvidas a hipótese de trabalho recente de que o longo ciclo de alta iniciado em abril de 2013, e que já elevou a Selic em 3,5 pontos porcentuais, está em vias de acabar.

“O RTI aponta 40% de probabilidade da inflação romper o teto da meta (6,5%) este ano – a mensagem que vem daí não é boa, e quem esperava fim próximo do ciclo deve estar repensando”, disse aquele analista. No relatório anterior, aquela probabilidade era de 28%.

Para Bráulio Borges, economista-chefe da consultoria LCA, “depois do RTI as chances de o BC não subir a Selic na próxima reunião (1º e 2 de abril) caiu para zero, e as chances de ele interromper depois de mais uma alta em abril também ficaram muito baixas, diria que de 5% a 10%”.

A LCA tem um cenário hoje de Selic chegando a 11,25% (mais duas altas de 0,25), mas planeja divulgar um relatório amanhã em que dirá que a probabilidade de que o ciclo se estenda até 11,5% agora é de 30%.

Borges acha que o juro real (medido nos juros de mercado) já está próximo da taxa neutra, em torno de 4,5% ao ano. “Prosseguindo o ciclo a partir de agora o BC entra em território de juro real positivo, isto é, desinflacionário – não precisa ir tão longe neste território porque o hiato do produto (folga de fatores) já está em campo”, diz o economista.

O consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, também mudou suas projeções de alta da Selic com a divulgação ontem do RTI. Em vez de interromper o ciclo na próxima reunião, agora ele espera que o Copom faça mais duas altas de 0,25, levando a taxa básica a 11,25%.

Muito mais do que na linguagem, o impacto do RTI de março nas expectativas do mercado encontra-se nas projeções. Como nota Borges, “as projeções pioraram mesmo incorporando juros mais altos”. A projeção de alta dos preços administrados, por exemplo, subiu de 4,5% para 5%, tanto em 2014 quanto em 2015. A projeção de alta dos preços de eletricidade em 2014 subiu de 7,5% para 9,5%.

No cenário de referência, que pressupõe câmbio e juros básicos estáveis, a inflação em 2014 será de 6,1%, e a de 2015, de 5,5%. No cenário de mercado (que pressupõe evolução de câmbio e juros de acordo com projeções do mercado), o IPCA fica em 6,2% este ano e 5,5% no próximo.

Um fato que vem chamando a atenção de muitos analistas é que, depois de 3,5 pontos percentuais de aumento da taxa Selic, as projeções de inflação hoje estão mais altas do que quando foi iniciado o ciclo de alta.

Nesse sentido, uma boa pergunta é por que o BC reduziu o ritmo de alta da Selic de 0,5 para 0,25 ponto porcentual na última reunião do Copom, no final de fevereiro.

Um analista acha que “como todos nós, o BC está sendo surpreendido com o choque de alimentação e com a inflação de março e abril”. Há 30 ou 40 dias, ele prossegue, as expectativas da inflação de março eram em torno de 5,5%. Porém, com a divulgação do IPCA-15 do mês de 0,73%, as projeções para o mês fechado já estão acima de 0,8%. A história de abril pode ser parecida, com ingredientes extras, como o aumento dos remédios.

Uma questão fundamental para determinar quão longo será o ciclo remanescente de altas da Selic é a natureza do atual choque de alimentos. Se ele mostrar reversão rápida, a situação do BC melhora um pouco; se revelar persistência, agrava uma situação já muito delicada.

Reduzindo a projeção de crescimento do PIB em 2014 de 2,3% para 2%, ao mesmo tempo em que aparentemente sinaliza que o aperto monetário vai além do esperado até há algum tempo, o Banco Central se coloca numa posição muito difícil em pleno ano eleitoral.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast na quinta-feira, 28/3/14.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: