A direita e o “cordão sanitário”

Seguindo o que ocorre em outros países, há um racha no campo da centro-direita e direita no Brasil, entre os que aceitam marchar com Bolsonaro e os que rejeitam a extrema-direita representada pelo atual presidente. Isso prejudica uma eventual candidatura de centro desse campo em 2022, como Lucina Huck.

Fernando Dantas

08 de fevereiro de 2021 | 19h46

A derrota de Baleia Rossi (MDB-SP) na disputa pela presidência da Câmara abriu uma rachadura no campo da centro-direita e direita no Brasil.

Rodrigo Maia (DEM-RJ), o articulador da candidatura de Rossi, se sente traído por ACM Neto (DEM-BA), que agiu para que o DEM, partido de ambos, ficasse neutro entre o candidato emedebista e o vitorioso Arthur Lira (PP-AL), o favorito do presidente Jair Bolsonaro. Maia agora diz que vai sair do DEM.

Como ocorre em diversos países, a grande questão é qual o tratamento que a centro-direita e a direita devem dar à extrema-direita, representada no Brasil de hoje pelo bolsonarismo.

É um dilema clássico. A extrema-direita é vista pelo sistema político respeitável como portadora de diversas características indignas e repulsivas.

O cardápio varia de país para país, de acordo com questões como formação histórica e étnica. Nos países ocidentais do hemisfério Norte, de maioria branca, um dos divisores d’água é o tratamento à questão dos imigrantes.

As forças de centro e de direita em geral – e por vezes até a centro-esquerda – se sentem à vontade para propor endurecer as regras para imigração, se essa for a vontade do eleitorado.

Mas há uma linha que políticos dos partidos convencionais relutam em ultrapassar: a do racismo. Já a extrema-direita não tem os mesmos escrúpulos, e de forma menos ou mais explícita flerta com ideias e slogans de cunho racista na sua guerra permanente contra a imigração.

Daí surge um dilema existencial para a centro-direita e direita, que é o de consentir ou não em alianças, ocasionais ou mais duradouras, com a extrema-direita.

Uma alternativa é o “cordão sanitário”, pelo qual políticos respeitáveis se recusam a qualquer entendimento ou articulação com o populismo de extrema-direita.

Acontece que muitas vezes esses populistas têm carisma e votos, e uma aliança com eles é tudo de que a direita tradicional precisa para derrotar a esquerda. Nesse caso, a tentação fica grande, e muitas vezes ocorre a aliança entre políticos “respeitáveis” e aqueles que pisoteiam as regras básicas de ética e etiqueta que regem as democracias modernas.

No caso brasileiro, o problema da imigração é irrelevante (embora Bolsonaro tente explorar o assunto) e racismo aberto está fora de questão mesmo para a extrema-direita, porque seria suicídio político num país em que mais da metade da população se declara preta ou parda.

Bolsonaro é frequentemente acusado de racista, por declarações e atos (como a nomeação de Sérgio Camargo, um negro negacionista do racismo, para dirigir a Fundação Palmares), e muitas vezes com razão. Esse, porém, não é um tema central na lista de abjeções com que o presidente brinda infatigavelmente a opinião pública.

E o que não falta são facetas da persona política de Bolsonaro que fazem do presidente um personagem a merecer um “cordão sanitário”.

Bolsonaro defende explicitamente a ditadura, e já defendeu várias vezes a tortura e a morte ilegal por agentes do Estado de opositores e combatentes de um regime de exceção. Um dos ídolos do presidente e seus filhos, o coronel Brilhante Ustra, foi um dos mais notórios torturadores do regime militar.

No atual governo, em conflitos com o Congresso e o Poder Judiciário, Bolsonaro já tomou diversas ações de apoio e incentivo a ações diretamente antidemocráticas. A proximidade do presidente com os militares, que recheiam seu governo, torna ainda mais graves esses atos.

Bolsonaro constantemente ataca, ofende ou tenta prejudicar em seus direitos minorias sexuais, indígenas, quilombolas etc. O presidente propositadamente sabotou o arcabouço nacional (já muito falho) de proteção ao meio ambiente.

Bolsonaro é um aliado incondicional das polícias no Brasil, o que em princípio seria aceitável. Mas o presidente e seus filhos fazem questão absoluta de não criar nenhuma separação entre a banda limpa e a banda podre das polícias.

Assim, defendem policiais matadores mesmo que não esteja caracterizada a legítima defesa. O apoio ao excludente de ilicitude é apenas uma forma de tentar legalizar o que já apoiam quando praticado ilegalmente.

No extremo, como policiais e ex-policiais criminosos e matadores no Brasil se constituíram em milícias, organizações criminosas e assassinas, é fundamental mencionar toda a extensa lista de relações perigosas da família Bolsonaro com essas pessoas – incluindo aquelas no âmbito do escândalo das “rachadinhas”, no qual o senador Flavio Bolsonaro é o principal acusado.

Com um currículo desses, não é de admirar que exista no Brasil uma centro-direita que queira se distanciar de Bolsonaro.

Por contingências históricas, Rodrigo Maia se tornou recentemente o núcleo dessas forças, e foi duramente derrotado, no seu embate com ACM Neto, pela direita que não quer fazer cordão sanitário.

De cara, essa derrota enfraquece a tentativa de criar, pelo campo que vai do centro à direita, uma candidatura centrista para ser protagonista na disputa presidencial do ano que vem. O nome do apresentador Luciano Huck surge como a bola da vez nessa tentativa, e o resultado da eleição para as Casas do Congresso não foi bom para ele, se de fato nutre a ambição de disputar a presidência.

Resta ver se, no campo que vai do centro à esquerda,  surgirá uma articulação consistente em torno de um nome centrista ou se a aposta será de novo na polarização entre esquerda e extrema-direita, caminhando para um segundo turno entre Bolsonaro e Lula, caso esse consiga concorrer, ou um candidato teleguiado por Lula.

Por enquanto, nada sugere que esteja ganhando gás uma candidatura de centro anti-Bolsonaro na disputa de 2022.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 8/2/2021, segunda-feira.