A direita erra no meio ambiente

Incêndios na Austrália mostram que as consequências destrutivas do aquecimento global já estão chegando. Relatório do Goldman Sachs, insuspeito de esquerdismo, lista os piores efeitos a se aguardar, enquanto alguns guardiões do pensamento "de direita" insistem em negar a ciência.

Fernando Dantas

14 de janeiro de 2020 | 19h59

Os gigantescos incêndios florestais na Austrália acenderam o alarme de que já estamos convivendo com os efeitos catastróficos do aquecimento global que vieram sendo previstos por especialistas ao longo das últimas décadas – previsões que frequentemente foram subestimadas ou descartadas como se fossem exageros retóricos da turma contra o desenvolvimento econômico capitalista.

De uma forma bizarra, o debate sobre o efeito estufa polarizou-se. De um lado, há uma corrente de direita que nega o consenso científico mundial. Do outro, o centro e a esquerda acertando ao reconhecer o problema e a necessidade de resolvê-lo.

A dificuldade, porém, é que parte da esquerda propugna como solução uma agenda anticapitalista e anticrescimento econômico que criaria outro problema monumental: a maioria da humanidade que ainda não atingiu – e aspira atingir – um padrão material de vida minimamente confortável teria que desistir deste sonho, em nome da ideologia regressista do “decrescimento”.

Há uma série de equívocos nessas visões. Em primeiro lugar, o aquecimento global não é uma decorrência do “capitalismo”, mas sim do sistema produtivo industrial que provê a vida material, num nível médio inusitadamente elevado, para 7,8 bilhões de pessoas.

Os países do “socialismo real” eram extremamente poluidores, e essa herança pode ser vista ainda hoje na Rússia e na China. Se os capitalistas em busca do lucro tendem a atropelar o meio-ambiente, o mesmo pode ser dito de burocratas buscando bater as metas do planejamento centralizado.

Sempre haverá incentivos para se produzir, mesmo porque o ser humano gosta de consumir. O que pode frear capitalistas ou burocratas são regulações punitivas – ou sistemas inteligentes de incentivos – que busquem coibir as “externalidades negativas” da produção sobre o meio ambiente. A intervenção do governo em caso de externalidades é prevista e prestigiada na teoria econômica “mainstream”, ou liberal e ortodoxa, como se diz no Brasil.

O grande problema do aquecimento global é que o seu combate exige uma coordenação mundial, entre todos os países, enquanto leis, regulações e políticas ambientais são normalmente limitadas a cada nação. Enquanto houver países soberanos, sejam quais forem seus sistemas produtivos, o gigantesco desafio de coordenação representado pelo aquecimento global – e por outros riscos mundiais que venham a surgir – permanecerá.

Por outro lado, a postura de negar e minimizar o aquecimento global – que vergonhosamente é comum no governo de Jair Bolsonaro – é um erro crasso do qual a direita populista muito provavelmente virá a se arrepender no futuro.

Assim como o apoio às ditaduras do socialismo real e a aposta na viabilidade econômica da substituição dos mercados pelo planejamento central desmoralizou parte da esquerda após a queda do Muro do Berlim e o colapso da União Soviética, a negação do aquecimento global, que retarda as providências necessárias para combatê-lo, será debitada na conta da direita, à medida que os efeitos nefastos, como os incêndios da Austrália, forem surgindo.

Assim, apesar da polarização política que engendrou, a formatação do problema do aquecimento global como um conflito entre capitalismo e anticapitalismo, ou entre direita e esquerda (em qualquer definição não aloprada de direita e esquerda) é um grande equívoco.

A não ser que alguém considere que o banco de investimentos Goldman Sachs, um símbolo de Wall Street, faça parte de alguma cabala esquerdista ou anticapitalista.

Em relatório recente (https://www.goldmansachs.com/insights/pages/gs-research/taking-the-heat/report.pdf), sobre como as cidades podem se tornar mais resilientes aos efeitos do aquecimento global, o Goldman Sachs lista os riscos negativos do fenômeno: ondas de calor mais intensas, frequentes e duradouras, com efeitos deletérios sobre a saúde humana, a produtividade e a agricultura; mais eventos climáticos destrutivos, como tempestades, ventos, inundações e incêndios; migração de doenças tropicais para latitudes hoje mais temperadas; mudanças disruptivas na agropecuária e na pesca; e problemas no abastecimento mundial de água potável.

Quem faz o alerta não é uma ONG internacional, mas sim um banco de investimentos conhecido por sua voracidade por lucros, e que por isto mesmo, como uma parte crescente do establishment capitalista global, não embarca no exercício desastroso de negar a evidência científica.

Ao fim e ao cabo, o negacionismo climático de governos como o de Trump e Bolsonaro combinam o apelo populista do obscurantismo, que pode render votos no curto prazo, a concessões ao que há de pior dentre os setores produtivos que são mais diretamente afetados pelo combate ao aquecimento global. Uma escolha míope e tosca, que vai manchar o currículo da direita que chegará às gerações futuras.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/1/19, terça-feira.

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