A estudada ambiguidade do BC

Banco Central manteve na ata a linguagem ambivalente do comunicado sobre a reunião do Copom de dezembro. Mercado agora tem dúvida se próximo movimento é alta de 0,25 ou 0,5 ponto porcentual da Selic, mas está claro que o BC está contando com a ajuda da política fiscal austera prometida por Joaquim Levy.

Fernando Dantas

12 Dezembro 2014 | 16h12

A ata da reunião do Copom da semana passada, divulgada ontem (11/12/14, quinta-feira), cristaliza a postura de estudada ambiguidade do Banco Central que já apareceu no comunicado da decisão, e desagradou parte do mercado. O comitê se diz ao mesmo tempo “especialmente vigilante” em relação à inflação e disposto a usar “parcimônia” no “esforço adicional de política monetária”.

O efeito imediato no mercado foi o de dar algum fôlego à aposta de um aumento de apenas 0,25 ponto porcentual na Selic em janeiro, embora a projeção de 0,5 ainda predomine. A ideia de 0,75 foi descartada, mas isso já aconteceu desde o surpreendente comunicado “dovish” da última reunião, que acompanhou a decisão “hawkish” de elevar o ritmo da alta de 0,25 para 0,5 ponto porcentual.

“Nosso cenário central é de que haja uma elevação de 0,5 na próxima reunião e mais uma de 0,25, mas cabe também dentro da ata fazer mais duas elevações de 0,25”, diz Luiz Gustavo Cherman, economista do Itaú-Unibanco.

Uma provável explicação para o posicionamento do BC é que o presidente Alexandre Tombini e demais diretores estejam colocando enorme fé não só na seriedade do compromisso fiscal e parafiscal da nova equipe econômica liderada por Joaquim Levy na Fazenda, mas também nos efeitos que a gestão mais austera das contas públicas terá em contribuir para o sucesso da política monetária.

“A grande novidade entre outubro e dezembro foi a nomeação de Levy”, diz Tony Volpon, diretor de pesquisa de mercados emergentes nas Américas do Nomura em Nova York.

No parágrafo 24, a ata diz que a política fiscal, expansionista em 2014, tende a ir para neutralidade em 2015 (isso já estava na ata anterior), mas acrescenta que não se descarta a hipótese de que seja contracionista. Além disso, há a menção nova, no parágrafo 25, a “oportunas iniciativas no sentido de moderar concessões de subsídios por intermédio de operações de crédito”, referência provável a iniciativas da nova equipe no campo parafiscal, e especialmente às operações do BNDES. Estas devem ser contidas e barateadas com a suspensão dos repasses do Tesouro a banco e a redução da diferença entre a TJLP e a Selic.

No parágrafo 30, o elemento novo em relação à ata da reunião de outubro é que, em vez de “assegurar a convergência tempestiva da inflação para a trajetória de metas”, as decisões futuras de política monetária visam assegurar “a convergência da inflação para a trajetória de metas que, na visão do Comitê, tende a ocorrer em 2016”.

Ou seja, o Copom tornou um pouco menos vago o timing do seu compromisso com o centro da meta de inflação, de 4,5%. Mas não parece se tratar ainda de um compromisso firme de levar o IPCA a 4,5% num horizonte determinado, já que convergência pode ser interpretada como o processo de aproximação, não necessariamente incluindo a sua conclusão.

Para o curto prazo, o BC alerta para a possibilidade de elevação da inflação, fruto da intensificação do processo de ajuste de preços relativos. Trata-se de uma referência à depreciação (a outra perna do processo, o ajuste de preços administrados, não parece ter se intensificado ainda), que é justamente o que tornou “menos favorável” o balanço de riscos (parágrafo 27), levando à decisão de elevar o ritmo da elevação da Selic para 0,5 ponto porcentual (parágrafo 28).

Mas a ata diz também que, apesar de se manter elevada em 2015, a inflação inicia ainda no próximo ano “um longo período de declínio”.

Assim, em resumo, fica claro que o Copom aposta que o ajuste de preços relativos será bem sucedido graças à combinação de aperto monetário – que ainda prossegue mas não irá muito longe – e de uma política fiscal e parafiscal mais austera. Assim, a inflação sobe a curto prazo por causa das elevações de preços administrados e de produtos comercializáveis internacionalmente, mas os demais preços são contidos. Junto com efeitos positivos de confiança – apontados pela ata – trazidos pela nova equipe, que podem estimular investimentos, tem-se o quadro de uma economia que cresce mais e tem inflação cadente em 2016.

Naturalmente, os céticos não estão convencidos. O consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, nota em relatório divulgado hoje que as expectativas de inflação subiram 0,6 ponto porcentual entre abril, quando o Copom concluiu o ciclo de elevação anterior da Selic, e dezembro. Assim, o ciclo atual não teria feito mais do que recolocar a Selic em termos reais nos níveis do início do ano.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 12/12/2014, quinta-feira.