A Evergrande é um novo Lehman Brothers?

O economista Livio Ribeiro, da BRCG e do IBRE-FGV, pensa que há importantes diferenças que fazem com que a atual crise da maior incorporadora chinesa não seja um evento que traga os riscos que levaram à grande crise global de 2008-2009.

Fernando Dantas

21 de setembro de 2021 | 10h54

Entre os muitos fatores internos e externos que compõem o momento difícil dos ativos brasileiros estão os temores sobre a economia chinesa, com a ameaça mais imediata sendo o colapso da Evergrande, segunda maior incorporadora do país asiático.

Que o desempenho da China é importante para o Brasil, não resta a menor dúvida. Neste ano até agosto, o saldo comercial brasileiro com a China, de US$ 35 bilhões, correspondeu a 67% do superávit comercial de US$ 52,1 bilhões.

O embalo espetacular com o qual a China parecia estar saindo da pandemia, percebido até o início deste ano, foi gradualmente dando lugar à percepção de que a economia chinesa continuava com os mesmos problemas e desafios de antes da Covid – como bolhas no mercado imobiliário e a transição para um modelo econômico mais baseado em serviços e consumo, e mais compatível com um crescimento anual da ordem de 5/6% do que de 8/9%.

Foi nesse contexto que surgiu a crise da Evergrande. Trata-se de um grupo gigante com 200 mil empregados, com tentáculos para além do setor imobiliário, incluindo parques de diversões e até um time de futebol. O grupo tem passivos superiores a US$ 300 bilhões, e agora está com problemas crescentes para pagar suas dívidas.

Alguns analistas apontam o risco de que o colapso da Evergrande venha se tornar o evento detonador de uma grande crise sistêmica na China, assim como o colapso do Lehman Brothers nos Estados Unidos deu início à grande crise financeira global de 2008-2009.

Ainda que não atinja essa proporção cataclísmica, uma eventual crise imobiliária de grandes proporções poderia representar um choque severo na economia chinesa.

Livio Ribeiro, sócio da Consultoria BRCG e pesquisador associado do Ibre-FGV, considera que a visão mais alarmista sobre a crise da Evergrande está equivocada.

Segundo o economista, o governo chinês há cerca de um ano vem implantando restrições ao endividamento das incorporadoras e a Evergrande, uma das que mais se endividou, não poderia deixar de ser afetada.

As medidas restritivas ao mercado imobiliários visaram tanto a oferta quanto a demanda e comprimiram a capacidade de geração de caixa das incorporadoras em geral.

Diferentemente do que ocorreu nos Estados Unidos em 2008, porém, na visão do analista, não há nada análogo na China aos derivativos financeiros complexos que basicamente ocultavam o risco de hipotecas de baixíssima qualidade e foram abalizados inclusive por agências de rating.

“A extensão dos derivativos financeiros e da pulverização de risco é infinitamente  menor na China do que foi lá atrás nos Estados Unidos”, diz o economista. Ele acrescenta que várias medidas foram tomadas para reduzir a possibilidade de que as ondas de choque do setor imobiliário atinjam com força outras partes da economia chinesa.

Na China, continua Ribeiro, a “implosão” da Evergrande é controlada e está sendo induzida por políticas públicas.

Por outro lado, ele aponta que “é um choque grande, que não deveria nos surpreender e vai balançar o cenário, mas não é o início do fim, como algumas pessoas estão vendendo”.

Concretamente, Ribeiro agora projeta crescimento da China no ano de 8,4/8,5%, abaixo da expectativa mediana de mercado. Esse número alto, claro, reflete a volta do PIB após crescer apenas 2,3% em 2020 (“apenas” para padrões chineses), em função da pandemia.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada em 17/9/2021, sexta-feira