A extrema direita e as redes sociais

O establishment está perplexo com a chegada ao "mainstream" político das bizarrices de Olavo de Carvalho e dos filhos de Bolsonaro. Mas o fenômeno não apareceu do nada: há razões pelas quais o populismo de direita nada de braçada nas redes sociais, como fica claro na cena norte-americana que levou Trump à presidência.

Fernando Dantas

10 de maio de 2019 | 19h27

O governo Bolsonaro trouxe para a cena política do País alguns elementos inteiramente novos, com os quais os analistas, há muito pouco tempo, não ousariam nem supor que teriam de lidar um dia.

Um universo bizarro, proveniente das redes sociais, invadiu o mundo da política de forma avassaladora, trazendo consigo ideias, posturas e comportamentos dos quais boa parte do establishment jamais havia ouvido falar.

A parte mais emblemática desse fenômeno é o chamado “olavismo”, uma esdrúxula e mal concatenada ideologia derivada das ideias do autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho, cujas marcas mais características são o anticomunismo e o hiperconservadorismo.

Estranha a muita gente, entretanto, a identificação de Olavo como um conservador católico, já que o desbocado, vulgar e imodesto professor online de Virgínia não guarda a menor semelhança com religiosos tradicionalistas do passado – como um Gustavo Corção, por exemplo –, para os quais decoro e circunspecção eram valores primordiais.

De qualquer forma, para entender melhor essas novidades na política, é preciso colocá-las num contexto internacional, e, particularmente, olhar com atenção alguns aspectos da surpreendente eleição de Donald Trump e da ascensão do populismo de direita nos Estados Unidos.

Já há muitos anos, existe todo um mundo subterrâneo nas redes sociais formado em boa parte por “gamers”, uma tribo com forte concentração de jovens solteiros (predominantemente brancos, no caso americano), frustrados e com grande dificuldade de galgar a escada do sucesso profissional, pessoal e mesmo amoroso numa sociedade capitalista cada vez mais intensamente competitiva.

Esses jovens, que buscam uma compensação substituta no mundo supermachista e violento de parte dos jogos eletrônicos, foram astutamente atraídos para a esfera da militância política de extrema-direita por personagens como Steve Bannon, ex-guru ideológico de Trump (e que se aproximou de Olavo recentemente), e Milo Yiannopoulos, um agitador extremista agora caído em desgraça.

É esse caldo de cultura – que inclui os gamers, mas não só eles – que explica por que nos últimos anos a extrema-direita tornou-se a corrente política que mais se beneficia e sabe utilizar as redes sociais. Há uma enorme massa de manobra de pessoas, predominantemente jovens do sexo masculino, revoltados contra o “sistema”, porém de uma perspectiva de menosprezo e ódio ao “outro”, seja imigrante, não-branco, homossexual ou pertencente a qualquer minoria.

Estes últimos grupos, na imaginação doentia das “milícias virtuais”, são injustamente protegidos por uma “elite cosmopolita”, em detrimento dos cidadãos tradicionais (isto é, brancos, ou nascidos no país, ou pertencentes a uma religião dominante etc.).

Os grupos visados podem variar de país para país, de situação para situação – por exemplo, o próprio Yannopoulos é homossexual, e este fato em si nunca foi problemático para ele em sua militância de extrema-direita (ele se complicou quando foi interpretado como justificando a pedofilia) –, mas há sempre o padrão de explorar o ressentimento de um grupo majoritário ou grande o suficiente para se sentir com prerrogativas especiais numa determinada sociedade. Complementarmente, insufla-se o ódio contras os grupos que supostamente são obstáculos ao exercício dessas prerrogativas.

O que faz da militância eletrônica de extrema-direita uma arma particularmente eficaz é o fato de que muitos desses jovens vivem boa parte do seu tempo de frente a computadores, e naturalmente navegam no mundo das redes sociais e da internet em geral com um grau de naturalidade e expertise bastante acima da média da população.

Adicionalmente, a extrema-direita tem uma tradição histórica de agressividade direta e não apologética pela qual se torna uma exímia operadora quando o objetivo é atacar o adversário de forma arrasadora, sem qualquer escrúpulo moral ou mesmo a necessidade hipócrita de manter uma fachada supostamente ética.

O “olavismo” e a virulência nas redes sociais dos filhos de Jair Bolsonaro, portanto, representam a chegada ao primeiro plano da disputa política no Brasil de um fenômeno global e particularmente forte nos Estados Unidos.

No caótico mundo das redes sociais, não domesticado pelas elites culturais, o que conta é o poder de disseminação, e não qualquer parâmetro de qualidade da informação ou análise. Isso explica por que, na estrada aberta pelo olavismo e pelos filhos de Bolsonaro, cheguem à discussão política “mainstream” questões extemporâneas e ridículas, como o “nazismo de esquerda”, o papel do Brasil no resgate da civilização ocidental e o suposto “comunismo” de George Soros e dos grandes grupos globais de mídia.

É um mundo novo, atordoante e desconcertante para os atores políticos e analistas ligados ao establishment. Mas será preciso aprender a lidar com isso, sem descuidar da pauta real das políticas públicas necessárias para garantir um futuro melhor a mais de 200 milhões de brasileiros.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/5/19, sexta-feira.

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