A fada da confiança existe?

Estudo do FMI mostra que ajustes fiscais reduzem o prêmio de risco dos países, o que tende a baixar os juros e impulsionar a economia. Mas efeito é mais expressivo em países de muito risco, o que já não é o caso do Brasil.

Fernando Dantas

08 de julho de 2019 | 18h41

A aprovação da reforma da Previdência pela Comissão Especial, e os bons augúrios (neste momento, tudo muda muito rápido no governo Bolsonaro) para as votações no plenário da Câmara dão uma cara melhor às perspectivas de solvência pública brasileira, no médio e longo prazo em particular.

Isso, em tese, melhora a confiança, que melhora o investimento, que melhora a atividade econômica. Os mercados brasileiros vêm numa fieira de semanas extremamente positivas, o que parece uma antecipação das boas perspectivas para a reforma da Previdência que começaram a ser confirmadas ontem e na madrugada de hoje.

Mas sabe-se que grande parte do bom humor provém da abundante liquidez do cenário externo, já que os bons ventos têm afetado também outros ativos de risco e mercados emergentes, conforme abordado neste espaço na coluna de ontem.

De qualquer forma, uma boa pergunta é sobre quanto o ganho de confiança, com o bom encaminhamento da reforma da Previdência, já influenciou e pode vir a influenciar o desempenho dos mercados e da economia brasileira.

Essa é uma questão razoavelmente controversa entre os economistas. De forma célebre, o prêmio Nobel Paul Krugman cunhou a expressão “fadas da confiança” para ironizar a crença de que o cumprimento dos draconianos pacotes de austeridade impostos aos países da periferia da zona do euro (como Grécia e Portugal) iria reavivar as suas economias.

Ambos países saíram da fase aguda da crise, Portugal de forma mais vistosa, mas a longa duração do sacrifício nos dois casos torna difícil argumentar que ocorreram claros efeitos de confiança.

Num estudo recém-publicado, entretanto, economistas do FMI (Antonio David, Jaime Guajardo e Juan Yepes) investigaram os impactos de anúncios de ajuste fiscal no spread de risco de 21 economias emergentes num período que vai de 2000 a 2018.

Os resultados do estudo do FMI mostram que os chamados spreads soberanos recuam “significativamente” em seguida a notícias de que medidas de austeridade foram aprovadas pelo Legislativo, mas os autores apontam que isto ocorre “em períodos de alto spread soberano ou em países submetidos a um programa do FMI” (ambas as situações não são o caso o Brasil de hoje).

Por outro lado, o trabalho também indica que os spreads soberanos recuam bem mais quando o Congresso aprova medidas de ajuste fiscal do que quando estas são anunciadas pelo Executivo. Nesse caso, encaixa-se melhor a perspectiva de aprovação da reforma da Previdência no Brasil.

Adicionalmente, o estudo do FMI mostra que a perda de atividade econômica associada a medidas de austeridade (por reduzir a demanda do governo) cai pela metade quando anúncios de medidas de austeridade levam a quedas no spread soberano, comparado à situação contrafactual em que os spreads não se mexem.

Os autores concluem que “os resultados constituem uma evidência direta de que efeitos de confiança, na forma de spreads soberanos mais baixos, são um importante canal de transmissão de choques fiscais”.

Para eles, o trabalho também sugere “uma visão menos fatalista para os executores de política econômicas, apontando que medidas de austeridade e os sacrifícios e impopularidade que as acompanham podem trazer compensações importantes até no curto e médio prazo”.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta matéria foi publicada pelo Broadcast em 5/7/19, sexta-feira.