A fala dura do BC é para valer?

Relatório Trimestral de Inflação de março veio com duro tom anti-inflacionário, mas alguns analistas acham que perspectiva de impeachment relativiza a sinalização do BC de que deve demorar para cortar a Selic, a taxa básica de juros.

Fernando Dantas

01 de abril de 2016 | 20h57

O Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de março, divulgado na quinta-feira (31/3/16), veio com um tom ‘hawkish’ (duro em relação à inflação, na expressão do mercado derivada de ‘falcão’ em inglês). Esta postura foi interpretada por muitos no mercado como sinal de redução de probabilidade de cortes da taxa básica de juros, a Selic, nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), e talvez mesmo até o fim do ano. Mas alguns analistas consideram que o fantasma do impeachment relativiza o conteúdo do RTI, e que cortes da Selic poderão vir mais cedo do que se pensa caso haja mudança de governo.

O argumento pode ser iniciado pela avaliação sobre que tipo de sinalização seria conveniente para o Banco Central num momento como o atual. A expressão “cenário binário” já ganhou uso corrente entre operadores e analistas, e significa que a votação do impeachment na Câmara cria uma alternativa entre o positivo (impedimento da presidente Dilma Rousseff) e o péssimo (vitória do governo) na visão do mercado, que pode ser decidida numa votação apertada cujo desfecho não parece ainda 100% seguro – mesmo com a vitória da oposição se mantendo como cenário base da maioria das instituições.

O calendário político indica ser provável que a votação da Câmara aconteça antes da próxima reunião do Copom, em 26 e 27 de abril. Diante da incerteza sobre um fato fundamental, com potencial de mexer muito – e em direções opostas – em variáveis macroeconômicas relevantes para a política monetária, a atitude de sinalizar estabilidade parece fazer sentido.

Além disso, ao dar sinais de que quer manter a Selic onde está por mais tempo do que parte do mercado supunha, o BC lustra suas arranhadas credenciais anti-inflacionárias, e pode potencializar a queda das expectativas de inflação num momento em que o melhor comportamento da inflação corrente já fará parte do jogo.

Até em termos políticos, uma sinalização agora de corte de juros, quando a inflação ainda está claramente desalinhada em relação aos objetivos da autoridade monetária, poderia parecer uma politização da política de juros que não ajudaria nem o BC nem, possivelmente, a presidente Dilma Rousseff.

Mas essa postura não significa, para alguns analistas, que o Copom necessariamente deixará a Selic parada por várias reuniões. Há quem aponte o histórico do BC sob o comando de seu atual presidente, Alexandre Tombini, que sempre deu muito peso ao ritmo da atividade econômica nas suas decisões. Com a inflação corrente e as expectativas melhorando, a continuidade da profunda recessão e o desemprego aumentando, o Copom resistirá a cortar a Selic?

E há também a possibilidade de que o impeachment seja aprovado, o que já está ajudando o Copom e pode ajudar ainda mais caso efetivamente se concretize.

Evidentemente, a aprovação do impeachment na Câmara iniciaria um processo que poderia levar à destituição da presidente Dilma Rousseff em relativamente pouco tempo. E, com isso, poderia haver mudanças no próprio Copom ainda este ano. Porém, independentemente de estarem lá ou não, os atuais membros têm que conduzir a política monetária de acordo com os desdobramentos previsíveis da cena macroeconômica.

“A mensagem do RTI parece a de ser que com câmbio a R$ 3,7 eles não cortam nem em abril nem em junho, mas o câmbio já está a R$ 3,55 e pode ir para R$ 3,4 se o impeachment for aprovado – esta mensagem do relatório, portanto, é muito perecível”, diz um gestor.

O impeachment também melhoraria a perspectiva de solução para a crise fiscal, na visão do mercado, o que poderia reforçar o câmbio. Além disso, dois fatores autônomos que estão atuando em favor do Brasil – certa calmaria internacional, com o Fed (Federal Reserve, BC norte-americano) mais ‘dovish’ (expressão derivada de pomba em inglês, e que se traduz na disposição de deixar os juros muito baixos por mais tempo) e a melhora nos problemas chineses; e a repatriação de recursos no exterior – também teriam seus efeitos potencializados com o impeachment. Tanto no caso do capital externo em busca de maior rentabilidade quanto dos recursos de brasileiros no exterior, a suposta melhoria econômica de um novo governo seria um atrativo a mais.

Por outro lado, no caso – ainda avaliado pelo mercado como de menor probabilidade – de o impeachment não passar na Câmara, poderia haver impactos contrários aos descritos acima, como mais desvalorização do câmbio, que obviamente iriam na direção de respaldar a postura mais hawkish do BC no RTI de março. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 31/3/2016, quinta-feira.

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