As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A força e a fraqueza de Temer

As mesmas características que fazem de Temer e seus principais colaboradores hábeis "operadores" políticos os tornam potencialmente vulneráveis ao vendaval da Lava-Jato e outros escândalos.

Fernando Dantas

25 Novembro 2016 | 18h41

Consultorias, departamentos de pesquisa de bancos e thinks tanks econômicos dispendem grandes volumes de energia intelectual, movida a gastos consideráveis com um capital humano necessariamente de alta qualificação, para traçar cenários para a economia brasileira. Por maior que sejam esses esforços, entretanto, é virtualmente impossível enquadrar satisfatoriamente em modelos e cenários algo tão volátil, imprevisível e potencialmente destruidor como a evolução da inacreditável saga de escândalos políticos brasileiros, da qual a corrente principal – mas não a única, como verifica-se ontem e hoje – é a operação Lava-Jato.

Se, num exercício de abstração, os escândalos e suas consequências sobre a governabilidade forem retirados de cena, a atual equação econômico-política pode ser descrita de forma relativamente simples.

Um governo que se auto imolou com uma política econômica irresponsável e autodestrutiva perdeu as condições de governar e foi substituído por uma nova administração com uma equipe econômica competente, dedicada a reerguer o País dos escombros. O problema, porém, é que esta tarefa tem como núcleo principal uma série de medidas de contenção de gastos, tidas como fortemente impopulares no Brasil. O desafio, portanto, é convencer a sociedade da necessidade do sacrifício, o que se confunde com a agenda de criticar a visão ideológica que provocou o desastre e fazer a pedagogia da condução responsável e inteligente da política econômica e da política pública em geral.

Na vida real, no entanto, o parágrafo acima descreve um aspecto no máximo coadjuvante do drama econômico-político nacional. Dilma caiu em grande parte pela força de um antipetismo nutrido na ideia de que o pecado capital do partido é a desonestidade e a corrupção, ainda que razão técnica do impeachment tenha sido de natureza fiscal. O problema, contudo, é que a presidente destituída foi sucedida por Michel Temer, alguém indissociável do perfil “clássico” dos políticos brasileiros, contra o qual cresce desde 2013 a hostilidade das ruas em todo o País.

Temer conta com a vantagem de seu estilo sóbrio e discreto, quando é natural que a fúria popular se volte mais contra políticos envolvidos em escândalos com personalidades mais coloridas e espalhafatosas, como Geddel Vieira Lima e Sérgio Cabral. Mas não é possível, a rigor, fazer nenhuma distinção fundamental entre o caldo de cultura política em que se move o atual presidente e aquele que há décadas contamina a política brasileira, com fisiologismo, corporativismo, barganhas rasteiras e, nos piores – mas frequentes – casos, corrupção.

Aliás, é exatamente por nadar com enorme desenvoltura nesse ambiente político, e compartilhar seu governo com diversas lideranças dessa cultura política tradicional e degradada, que Temer tem obtido impressionante sucesso até agora em fazer passar pelo Congresso Nacional medidas consideradas inviáveis politicamente. O melhor exemplo, claro, é a PEC de limite dos gastos públicos, aprovada em dois turnos, com esmagadora maioria e nenhuma adulteração, pela Câmara dos Deputados.

Paradoxalmente, porém, a maior força de Temer é também a sua maior fraqueza. Esse grupo político extremamente capaz, que pode viabilizar o início de uma agenda de ajuste do Estado de bem-estar social brasileiro à realidade fiscal do País, é exatamente por isto o mais potencialmente vulnerável à operação Lava-Jato e outros escândalos adjacentes.

O episódio envolvendo Geddel e ex-ministro Calero, que agora atingiu Temer, ilustra antes de tudo uma mentalidade política: é um exemplo, até relativamente pequeno, do mercado de troca de vantagens privadas que se tornam a moeda da obtenção de votos no Congresso quando a atividade política é despida de qualquer sentido ideológico. Os “operadores” políticos do ministério de Temer são precisamente os mestres desse jogo tradicional de toma-lá-dá-cá, que de desenvolve num terreno que vai do legal, mas antiético, até as formas mais crassas de corrupção.

À medida, portanto, que se aproxima o dia do “Juízo Final” com a megadelação da Odebrecht, é difícil supor que a equação fundamental da economia política brasileira atual continuará sendo a de um governo com política econômica ortodoxa e liberal tentando vender seu doloroso ajuste fiscal à sociedade, mas com o trunfo de uma máquina superazeitada de angariamento de votos no Congresso.

Nesse sentido, e ironicamente, se a teoria das viúvas de Dilma estiver certa, o cenário econômico pode ser melhor. Se, de fato, a operação Lava-Jato foi capturada por uma orquestração de elites voltada a punir exclusivamente o PT, pode ser que o maremoto da Odebrecht esteja sendo cuidadosamente sintonizado para poupar Temer e seu esquema político. Neste caso, a agenda de reformas prosseguiria, mesmo que sujeita a muitos solavancos.

Na hipótese, porém, de que a Lava-Jato seja a expressão do crescente fortalecimento das instituições de controle e repressão da corrupção e de outras formas de ilegalidade – um processo previsível, dada a matriz constitucional da qual derivam estes órgãos –, o choque com um sistema político irremediavelmente apodrecido pode ser de dimensões titânicas. Neste caso, o ajuste fiscal e o soerguimento da economia brasileira poderiam cair para o segundo plano. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada em 25/11/16, sexta-feira, pelo Broadcast.