A geopolítica da transição energética

De efeitos desestabilizadores sobre países pobre produtores de matérias primas a tensões entre Estados Unidos e China, o caminho da descarbonização global tem muitos desafios geopolíticos.

Fernando Dantas

08 de dezembro de 2021 | 11h06

A transição para uma economia global de carbono zero dentro de poucas décadas, para evitar que o aquecimento global supere 1,5 grau centígrado, parece ter se firmado como um objetivo oficial do concerto das nações. Daí a acontecer no mundo real, claro, são outros quinhentos.

De qualquer forma, a seriedade com que a transição energética está sendo tratada pelos poderosos do mundo já é suficiente para que o assunto entre a fundo no radar do mercado, dos analistas e dos acadêmicos.

De início, já se sabe que o processo tem grandes implicações macroeconômicas, que vão de potenciais pressões inflacionárias (faz parte elevar o custo de emitir carbono) a diferentes impactos sobre o crescimento. Os efeitos setoriais e sobre o mercado de trabalho também podem ser descomunais, beneficiando indústrias e produtos descabornizados em detrimento dos que mais emitem.

Em recente artigo no site da Conferência de Segurança de Munique (MSC, na sigla em inglês, o maior e mais tradicional evento sobre o tema do mundo, iniciado em 1963), a cientista política Julia Hammelehle, conselheira do MSC, chamou a atenção para outra faceta crucial das mudanças globais ligada à transição energética: a geopolítica.

Para além das muitas questões econômicas e tecnológicas, descarbonizar o mundo dependerá da capacidade política e diplomática dos principais países do mundo de cooperar e até competir de forma construtiva.

Hammelehle aponta as principais batatas quentes no caminho da transição energética.

De início, ela recapitula que, apesar de 131 países, responsáveis por 73% das emissões globais, já terem concordado em reduzir o carbono a zero até aproximadamente 2050, a defasagem entre as promessas e os planos concretos para cumpri-las é enorme.

Em particular, a defasagem entre os investimentos em descarbonização dos países ricos e em desenvolvimento vem aumentando, enquanto a parcela do crescimento das emissões globais ligada ao segundo grupo está crescendo. Assim, de início é preciso aumentar a ajuda dos ricos, especialmente para os países mais pobres.

Em segundo lugar, a pesquisadora alerta que a descarbonização energética pode ser profundamente desestabilizadora para países superdependentes da economia de carbono, como grandes produtores de petróleo, e especialmente os mais pobres e conflituosos, como Nigéria, Argélia, Chad e Iraque, entre outros.

De forma simétrica, países pobres e instáveis com grandes reservas de matérias-primas que serão mais demandadas pela economia de baixo carbono, como lítio, cobalto e terras raras, podem ter problemas de corrupção, conflitos e aumento de desigualdade. Alguns exemplos são a Guinea, com 25% das reservas globais de bauxita, e o República Democrática do Congo, com 51% das reservas globais de cobalto.

Em seguida, Hammelehle explora as tensões que a transição energética traz para a já delicada relação entre as duas principais potências do mundo, Estados Unidos e China.

Ela apresenta números de anos recentes que mostram a esmagadora dianteira da China na oferta de materiais e produtos da economia descarbonizada: mais de 70% da capacidade de produção mundial de veículos elétricos e suas baterias, e nível semelhante de módulos de produção de energia solar fotovoltaica. A China também é responsável por 50% a 70% do refino global de cobalto e lítio e domina a cadeia de valor mundial de terras raras.

A autora nota que a China já usou restrição de exportação de terras raras como arma diplomática num conflito com o Japão e ameaçou fazer o mesmo recentemente com países ocidentais.

Essas tensões podem minar a mais do que necessária cooperação entre as duas maiores potências globais no esforço para que o mundo se mova na direção do carbono zero.

Mas esse desfecho negativo não tem necessariamente que ocorrer, frisa Hammelehle. Ela nota que recentemente Estados Unidos e China sinalizaram que estão dispostos a cooperar na transição energética, e que também há espaço para uma competição virtuosa entre as duas potência pela liderança em termos de clima e energia limpa. Porém, para que isso ocorra, é preciso desanuviar o ambiente internacional de “competição geopolítica feroz e falta de confiança”.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 7/12/2021, terça-feira.