A globalização do protesto jovem

Fernando Dantas

31 de julho de 2013 | 17h05

O cientista político e jornalista Maurício Santoro estava em Istambul, numa viagem de pesquisa sobre as manifestações naquele país, quando os protestos de junho estouraram no Brasil. Foi uma coincidência e tanto. Ele e Bruno Borges, cientista político e especialista em relações internacionais, estavam justamente conversando sobre a possibilidade de organizar um curso sobre as tensões nos sistemas políticos dos Estados Unidos e da Europa, em função da crise econômica. A isso se somava uma agenda de viagens a trabalho à Turquia, Índia e países latino-americanos, onde também aconteciam manifestações, mesmo sem crises na economia.

“Fomos atropelados pelos acontecimentos”, diz Santoro, em referência à eclosão dos protestos no Brasil. Para os dois cientistas políticos, trata-se de um momento extremamente fértil, que os levou a montar um curso a ser ministrado em novembro na Casa do Saber, no Rio, com o sugestivo nome de “O Mal Estar na Democracia”.

Como resume Santoro, “estamos diante de uma situação de descontentamento com as instituições, de mal-estar na democracia, que afeta tanto os países ricos quando nações de renda média”.

Borges acrescenta que “esta crise da representação não é uma exclusividade brasileira”. Para ele, as causas e o contexto variam, mas é possível dizer que se trata de um problema global, disseminado em diferentes países e regiões do mundo.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a forte polarização entre dois partidos exclui quem não se adapta à linha de nenhum dos dois, enquanto que, na União Europeia, o projeto supranacional de união econômica e política é uma agenda acima dos Estados nacionais, à qual os eleitores têm dificuldade de se contrapor. Quando chegam ao poder, políticos de diferentes partidos, mesmo que tenham feito promessas em sentido contrário, são obrigados a se curvar à agenda da união.

Para Borges, essa obstrução dos canais de representação na Europa, especialmente nos países periféricos do euro, em crise, cria um “caldo supurado” que infesta a política local, com a emergência de grupos violentos e radicais, muitas vezes com características xenófobas e fascistas.

Mas um dos temas mais interessantes dos dois cientistas políticos é a ascensão, em vários países emergentes importantes, de uma nova geração política. “É um grupo que tem hoje por volta de 20 anos, e é chamado pelos sul-africanos de ‘born-free generation’ (geração nascida livre)”, explica Santoro.

Sem excessivas esquematizações, é possível traçar um paralelo sobre esse novo ator político no Brasil, na Turquia, na África do Sul e na Índia.

“Em muitos casos, é primeira geração nascida e criada na democracia, e tem mais acesso à informação, mais instrução formal e, com frequência, uma renda mais elevada do que a dos pais”, diz Santoro. É uma geração que não viveu a experiência da repressão do Estado, mesmo na Índia, que nunca foi ditadura, mas teve os períodos de emergência de Indira Gandhi.

Um dos maiores diferenciais dessa nova geração é o acesso à informação. Santoro nota que, na Turquia e na Índia, só havia um canal de TV até os anos 80, e controlado pelo Estado. Ele acrescenta que as demandas da nova geração variam muito de país para país, mas têm em comum o fato de conter expectativas muito mais elevadas do que a dos seus pais.

Outra questão interessante a ser abordada pelos pesquisadores é a ligação internacional entre os movimentos de protesto, com formatos de manifestações sendo “exportados”, como o caso da ocupação da praça Tahrir, no Egito.

Outra característica comum é a forma muito pessoal de expressão dos manifestantes. Assim, proliferam os cartazes individuais, carregados por uma pessoa, e com mensagens pessoais e criativas, com a redução do espaço das grandes faixas levadas por grandes grupos de manifestantes. E, especialmente nos países emergentes, repete-se a inadequação da reação policial aos protestos.

“O que acontece em um país acaba estimulando e dando exemplo para jovens em outros países”, diz Santoro.

Borges, mestre em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais (IRI) da PUC-Rio e PhD em Ciência Política pela Universidade Duke, é professor do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio e coordenador pedagógico do Clio Internacional.

Santoro, doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Estado do Rio de Janeiro (Iuperj), é assessor de Política Externa e Direitos Humanos da Anistia Internacional Brasil e autor do livro “Ditaduras Contemporâneas”.

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast. E-mail: fernando.dantas@estadao.com

Esta coluna foi originalmente publicada pela AE-News/Broadcast

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