A guerra comercial e os emergentes

Recente estudo do FMI tenta radiografar melhor os efeitos do conflito comercial entre Estados Unidos e China, incluindo impacto nos emergentes, como o Brasil.

Fernando Dantas

27 de maio de 2019 | 18h39

Em artigo recém-publicado no IMFBlog (blog do FMI), três economistas do Fundo – Eugenio Cerutti, Gita Gopinath e Adil Mohommad – tentam detalhar um pouco mais os efeitos da guerra comercial entre Estados Unidos e China na economia dos dois países e do mundo.

Em 2018, os Estados Unidos subiram tarifas sobre produtos chineses em três rodadas, afetando, respectivamente, US$ 34 bilhões em importações, US$ 16 bilhões e US$ 200 bilhões (cumulativamente). Em 10 de maio último, houve a elevação para 25% das tarifas em US$ 200 bilhões de importações chinesas. Em retaliação, a China anunciou que vai subir, a partir de 1º de junho, tarifas em US$ 60 bilhões de produtos importados dos Estados Unidos.

Os economistas citam um outro estudo de vários autores que mostra que quem pagou o aumento das tarifas das importações americanas da China foram consumidores (especialmente estes) e produtores americanos (que consomem estes produtos como insumos). O preço de exportação pelos chineses permaneceu o mesmo.

A pesquisa também indica que, em termos comerciais, países como México e Brasil levaram alguma vantagem nesta fase inicial da guerra comercial. No caso mexicano, os autores exemplificam com um salto de US$ 850 bilhões em exportações para o México quase concomitante a uma redução de mesma monta de importações americanas da China, na esteira da rodada de alta de tarifas de US$ 16 bilhões em agosto do ano passado.

No caso do Brasil, a vantagem está ligada à maciça queda das exportações da commodity pelos Estados Unidos para a China, depois que esta impôs tarifas em 2018. Como resultado, o preço da soja americana caiu e o da brasileira subiu, segundo os economistas.

“Ainda que os preços tenham recentemente reconvergido e as exportações (americanas) para a China tenham recomeçado (foram a quase zero) em certa medida, os produtores americanos de soja sofreram, enquanto aqueles no Brasil se beneficiaram de desvio de comércio e segmentação de mercado”, escreveram Cerutti, Gopinath e Mohommad.

O Brasil, porém, não tem muito a comemorar com a guerra comercial, pensa Lia Baker Valls Pereira, especialista do Ibre/FGV em comércio internacional.

No recentemente publicado Boletim Macro Ibre de maio/2019 (seção 7 – Setor Externo), a economista nota que “o impacto de um acirramento das tensões comerciais leva a uma piora quanto ao crescimento da economia mundial, que afeta negativamente todos os países”.

Um segundo argumento de Lia é o de que “na mesa de negociações com os Estados Unidos é mais fácil os chineses ofertarem preferências na área agrícola do que em temas como propriedade intelectual”. Finalmente, ela alerta que tensões comerciais são um dos fatores que dão volatilidade às taxas de câmbio, o que dificulta as decisões dos operadores de comércio exterior.

Os economistas do FMI também mostram que o efeito na balança comercial EUA-China das medidas adicionais em 2019 da guerra comercial entre os dois países foi muito limitado, já que exportações e importações caem simultaneamente. Em termos globais, estimam que a guerra comercial, incluindo novos passos já delineados, que podem atingir todo o comércio entre Estados Unidos e China, subtrairá 0,3% do PIB global no curto prazo, com metade ligado à confiança de empresas e nos mercados.

Mesmo modesto, o problema dos impactos da guerra comercial é que vêm em cima de outros fatores que compõem em 2019 o que os economistas definem como “um ano delicado para a economia global”.

Em particular, a guerra comercial – que, se atingir a indústria automobilística, pode se estender a vários países – pode prejudicar o “sentimento” de mercados e empresas, e impactar negativamente os spreads de risco e as moedas de países emergentes.

É tudo de que o Brasil não precisa neste momento crítico em que a retomada da economia quase parou.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 24/5/19, sexta-feira.

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