A guerra das expectativas

Nova dureza do BC já pode estar aparecendo nas expectativas inflacionárias, mas inflação corrente elevada atrapalha.

Fernando Dantas

08 de junho de 2015 | 18h22

Enquanto alguns no mercado já se preocupam com o que seria um excesso de rigor anti-inflacionário do Banco Central em sua nova postura “hawkish” (levar a ferro e fogo o IPCA para 4,5% em 2016, mesmo com a atividade despencando), o Comitê de Política Monetária (Copom) vê o mergulho da economia como uma oportunidade para vencer a batalha das expectativas.

A guerra é longa, mas já há alguns sinais de alento. Como nota Bráulio Borges, economista-chefe da consultoria LCA, a distribuição das expectativas do mercado para a alta do IPCA em 2016 mostrou uma mudança – que o analista considera importante – na última leitura do Boletim Focus. O BC divulga periodicamente o gráfico da distribuição das expectativas. Borges observa que, embora a projeção mediana continue em 5,5%, houve redução considerável no número de analistas projetando elevação do IPCA entre 5,5% e 6% no próximo ano. Por outro lado, registrou-se um aumento equivalente do número de analistas prevendo números entre 4,5% e 5,5%.

“Isso prenuncia uma descompressão mais relevante, nas próximas semanas, da expectativa mediana para a alta do IPCA em 2016, saindo dos 5,5% atuais para algo mais próximo a 5%”, prevê Borges.

Outro analista ouvido pela coluna é mais cético. Na sua visão, as expectativas para 2016 das projeções “mais qualificadas” mantém-se entre 5,3% e 6,1%. “As expectativas mais qualificadas para 2016 não caem não porque o BC não tenha credibilidade, mas porque a essa altura não depende mais deles, não dá mais tempo”, ele diz.

Para ilustrar o tamanho do problema do Copom, mesmo depois que houve a virada hawkish na postura dos seus membros, a partir do final do ano passado, o analista observa que, no Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de dezembro, a projeção para o IPCA nos 12 meses até março de 2015 era de 6,4%. Na verdade, a inflação no período ficou em 8,1%, ou 1,7 ponto acima da previsão de apenas três meses antes. Num horizonte de um trimestre à frente, piora. A projeção no RTI de dezembro para o IPCA nos 12 meses até junho de 2015 era de 6,1%. Agora, levando-se em conta as últimas projeções do IPCA para maio e junho, a inflação até junho deste ano aponta para 8%.

“Isso desloca toda a curva para cima – mesmo com tudo o que está fazendo em termos de ser superrígido e ortodoxo, o BC ainda tem essas surpresas ruins”, ele diz.

O analista nota ainda que fazer a inflação chegar a 4,5% em 2016 significa colocá-la abaixo do centro da meta por alguns trimestres a partir de 2017. Para ele, um IPCA – por exemplo – um pouco acima de 4,5% em 2016 seguido de três trimestres em que o acumulado em 12 meses esteja em 4,5% corresponde a uma aproximação maior do centro da meta do que chegar a 4,5% no final de 2016 e jogar o acumulado para 4% durante boa parte de 2017.

Um problema adicional, notado por esse e outros analistas, é que a inflação corrente voltou a dar notícias ruins, ligadas principalmente (mas não só) aos alimentos. Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX no Rio, aponta que não está ocorrendo a baixa sazonal esperada dos alimentos nesta época do ano. A dúvida, ela diz, é se isto decorre de problemas de oferta (como os climáticos) ou se reflete repasses da alta dos preços administrados.

“O BC está certo em ficar com um pé atrás e não achar que, só porque é alimento, é passageiro”, ela diz.

Outro exemplo de alta recente que bate na inflação corrente são os planos de saúde. Mesmo a inflação excluindo os alimentos está “longe de tranquila”, na visão de Solange. Ainda que o desemprego esteja aumentando, ela acha que seus efeitos no combate à inflação “não podem ficar só em discurso de economista, mas têm que bater nas expectativas”.

Para a economista, “entregar um IPCA em 2016 de 5,5% para baixo já vai ser uma grande vitória para o BC, mas entregar acima de 6% é uma derrota e acima de 6,5% é uma grande derrota e aí talvez não tenha nem mais credibilidade a se recompor”.

Uma hipótese que parece pairar na maior parte das análises (incluindo os profissionais ouvidos para esta coluna) é que, independente da próxima decisão de política monetária do Copom na reunião de 28 e 29 de julho, é importante que o BC mantenha a postura rigorosa da comunicação, com a ênfase – como vem fazendo – em palavras como “vigilante” e “perseverante”.

Em sua nota de análise da decisão e do comunicado do Copom ao fim da reunião desta terça e quarta-feira (2 e 3/6), Ilan Goldfajn e Caio Megale, do Itaú-Unibanco, notam que, mesmo que o Copom ainda não tenha dado sinais de que o ciclo de aperto monetário está se encerrando, eles acreditam que “a atividade em queda deve convencer o Copom a interromper o ciclo depois da alta de hoje (quarta)”. Se isto ocorrer, a partir daí a guerra de expectativas será travada com a disposição a ser mostrada pelo BC de não baixar a Selic enquanto não assegurar a vitória. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

 Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 5/6/15, sexta-feira.

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