A hipótese do “mais do mesmo” com Dilma

Política econômica da atual presidente em eventual segundo mercado, é curiosamente, a maior dúvida do mercado na eleição. Há chances de "mais do mesmo", com adaptações.

Fernando Dantas

07 de setembro de 2014 | 21h37

Qual será a política econômica da presidente Dilma Rousseff, caso consiga se reeleger? Do ponto de vista do mercado financeiro e dos analistas econômicos, esta talvez seja a principal interrogação associada ao atual quadro eleitoral. As mais diferentes previsões têm seus defensores.

Para alguns, Dilma faria uma política econômica mais ortodoxa, mesmo que não chegasse ao figurino impecavelmente liberal da plataforma tanto de Aécio Neves quanto de Marina Silva. Especulações atuais e passadas sobre nomes que poderiam substituir Guido Mantega na Fazenda, independentemente de terem ou não fundamento, vão nessa direção: o atual presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini (mesmo que em política monetária tenha sido “pombo”) e o ex-secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa.

Outra corrente acha que, pelo contrário, Dilma poderia redobrar a aposta na heterodoxia. O raciocínio neste caso tem dois componentes principais. O primeiro é que a presidente acredita nessas ideias, e o insucesso com a nova matriz econômica pode ter interrompido apenas temporariamente o experimento, que seria retomado quando as condições políticas e econômicas fossem mais favoráveis.

Além disso, há a visão de que medidas heterodoxas acabam empurrando o governo a tomar outras decisões na mesma direção. Assim, uma intervenção nos mercados cria efeitos indesejados que levam a novas medidas, e assim por diante. Além disso, benefícios e esquemas de proteção criam “clientelas” deste tipo de política, que passam a lutar por sua manutenção e amplicação. Finalmente, à medida que as distorções de preços se acumulam, o custo de corrigi-las vai ficando mais elevado e mais difícil de pagar em termos políticos.

Uma terceira posição é que Dilma fará “mais do mesmo”, com adaptações circunstanciais da política econômica atual à medida que a conjuntura vá evoluindo.

A aposta na guinada ortodoxa esbarra no fato de que este caminho representaria um grande “estelionato eleitoral” em relação ao que Dilma vem defendendo em sua campanha. Ao contrário do que às vezes se supõe, há a percepção nas principais forças do sistema político brasileiro de que o eleitorado nacional tem um nível razoável de maturidade e que o custo do estelionato eleitoral pode ser muito alto. O impacto na popularidade de Fernando Henrique Cardoso da desvalorização do real em 1999 é um bom exemplo.

Outro problema com a aposta na virada centrista de Dilma é que, mesmo que ela convoque para o ministério da Fazenda um nome com perfil menos heterodoxo que a atual equipe, a presidente é conhecida por não delegar poderes naquilo que considera essencial. Assim, esse cenário poderia evoluir para um confronto e a saída do novo ministro, ou para a sua submissão à visão presidencial.

A hipótese da radicalização heterodoxa ignora que há dentro do PT correntes mais liberais em termos de política econômica, que têm poder razoável no partido. O próprio ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é próximo de conselheiros econômicos bastante moderados, e não tem vinculações muito fortes com o ideário heterodoxo. Ainda assim, é real o risco de “argentinização à conta-gotas”, com medidas corretivas a erros anteriores que pioram ainda mais o cenário, levando a um acúmulo de distorções que acaba se tornando politicamente incorrigível. Mas ainda está ao alcance de Dilma, num eventual segundo mandato, evitar esse perigo com bom senso e pitadas de ortodoxia, sem incorrer num claro estelionato eleitoral.

Dessa forma, por exclusão, surge como cenário mais possível num segundo mandato de Dilma o “mais do mesmo”, mas com adaptações às novas circunstâncias. Tentar engajar o setor privado com uma orientação mais pró-mercado nas concessões, por exemplo, é um movimento que já vem sendo lentamente ensaiado e que não teria porque ser abortado a partir de 2015. Da mesma forma, um ajuste recessivo gradual – e por isso mesmo prolongado – já teve início, e seria insensato interrompê-lo com uma nova rodada da nova matriz antes que a economia esteja reequilibrada. Os preços administrados, por sua vez, terão de ser liberados, e o processo já teve início nas tarifas elétricas. No cenário de continuidade, o mais provável é que a correção prossiga, mas de forma cautelosa. A política fiscal deve ser recalibrada, mas menos intensamente do que com Aécio e Marina.

O grande problema do “mais do mesmo” é recuperar a confiança dos empresários e, consequentemente, relançar o investimento. Não parece haver ainda no campo de Dilma sinais de que a presidente saiba como vencer esse desafio.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 4/9/14, quinta-feira.

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