A hora e a vez do real?

Apesar da perspectiva de um aperto monetário nos EUA bem mais forte do que se pensava, moedas emergentes estão indo bem, obrigado, e real melhor ainda. Por quê?

Fernando Dantas

14 de fevereiro de 2022 | 12h43

Apesar da reavaliação drástica e repentina dos mercados sobre o aperto monetário nos Estados Unidos, que agora surge como bem mais intenso, o real brasileiro já se valorizou quase 10% ante o dólar norte-americano desde o dia 5 de janeiro (o pico de depreciação mais recente).

Não é o que se espera normalmente. Alta de juros nos Estados Unidos costuma ser ruim para moedas emergentes, mas pode se dizer que, se o movimento for previsível e sem sustos, aquele efeito é neutralizado.

Mas não é o que ocorre desta vez. É aos trancos e barrancos que o mercado americano e internacional se ajusta à percepção de que o Fed, BC dos EUA, será muito mais duro este ano do que se pensava em meados de 2021.

E, no entanto, como nota um gestor no Rio, o real e outras moedas emergentes importantes seguem impávidas e até apreciando.

O profissional lista alguns fatores que podem estar contribuindo para essa tendência. O primeiro é que ajustes de política monetária, no sentido de elevação de juros, já estão em curso em países como o Brasil, Chile, Colômbia e México.

Em termos da curva de juros, ele nota que “o diferencial não está caindo ou até subiu favoravelmente aos emergentes”.

Outro fator favorável para muitos emergentes é que as commodities estão se valorizando, o que é o oposto do que ocorre mais frequentemente quando sobe a taxa de juros norte-americana. Esse movimento das matérias-primas é impulsionado pelo afrouxamento monetário na China, que está numa posição cíclica bem diferente da maioria dos países.

E, finalmente, há um ciclo de fraqueza de moedas emergentes há vários anos, o que torna seu “preço” favorável.

Dito tudo isso, o gestor acrescenta que o desempenho recente do real está acima da performance média, também positiva, das moedas emergentes.

Ele considera que dois fatores podem explicar o destaque do real. O primeiro é que os juros no Brasil não só saíram na frente na alta como estão já num patamar muito elevado (e acima dos seus pares) de dois dígitos, com a taxa básica devendo subir ainda mais.

Em segundo lugar, existe uma percepção bem mais condescendente dos investidores, especialmente internacionais, em relação à política econômica num eventual governo Lula, que é visto como o grande favorito para vencer a eleição presidencial este ano.

Bráulio Borges, economista sênior da consultoria LCA e pesquisador associado do Ibre-FGV, considera que o bom desempenho do real, mesmo diante da violenta oscilação recente na estrutura a termo dos juros nos Estados Unidos, indica que há um prêmio de risco muito alto na cotação da moeda brasileira.

Dessa forma, Borges, sem ignorar a questão mais geral do bom momento das moedas emergentes, enfatiza bastante o fator político doméstico.

“O câmbio está valorizando em boa parte porque existe a percepção de que a vitória do Lula é melhor do que a continuação do Bolsonaro”, ele diz.

O economista acrescenta que, ironicamente, e de forma inversa ao que aconteceu em 2002, esse componente político na apreciação do câmbio, se ela se mantiver, pode até ajudar eleitoralmente Bolsonaro, porque alivia a inflação, a pressão nos combustíveis etc. (mas ele não está dizendo que Bolsonaro vai vencer por causa disso).

Borges nota ainda que a acumulação de ativos por brasileiros no exterior se acelerou durante a pandemia, quando quase mais US$ 100 bilhões saíram, segundo os últimos dados, até o terceiro trimestre do ano passado. Desse total, cerca de US$ 40 bilhões são receitas de exportação não internalizadas.

Há motivos para os brasileiros mandarem parte substancial dessa dinheirama de volta para casa agora com o real se valorizando (quanto maior depreciado for o câmbio da volta, melhor), o que retroalimenta a apreciação. Adicionalmente, há os juros indo para a faixa de 12-13% e, para brasileiros com ativos de risco lá fora, como ações, a alta dos juros americanos pode levar a perdas.

Borges observa, finalmente, que uma eventual apreciação do câmbio mais duradoura facilita a política econômica, inclusive a monetária, e traria perspectiva econômica mais favorável, especialmente para 2023, primeiro ano do próximo governo.

A ressalva (não a discordância) da coluna é que o câmbio é a mãe de todos os indicadores imprevisíveis do mercado financeiro, e que a história do aperto monetário americano e seus efeitos no Brasil e no mundo apenas começou.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 11/2/2022, sexta-feira.