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A hora mais escura

Saída de Nelson Teich do Ministério da Saúde, com apenas poucas semanas, é mais um sinal de que Bolsonaro empurra o País na direção do abismo.

Fernando Dantas

15 de maio de 2020 | 20h10

Nelson Teich se demitiu hoje do Ministério da Saúde, após poucas semanas no cargo. O general Eduardo Pazuello, secretário-executivo do Ministério, assume interinamente.

Em meio à maior crise de saúde pública mundial em um século, o presidente Jair Bolsonaro conseguiu a façanha de colocar o centro de comando das ações do Estado, o Ministério da Saúde, em situação de permanente pandemônio.

Inicialmente demitiu um ministro bem avaliado, e que estava fazendo um bom trabalho, com uma equipe altamente motivada. Na sequência, puxou o tapete do substituto.

Agora, com mais um militar (interinamente) entre seus ministros, Bolsonaro talvez ache que finalmente conseguirá forçar a sua estratégia de reabrir a economia na marra, ao custo de centenas de milhares de mortes. É muito duvidoso.

Como indicado ontem neste espaço, na coluna sobre as estimativas de avanço da Covid-19 realizadas pela gestora Kapitalo (dedução do colunista a partir dos números, os economistas da instituição preferem não avançar nada além do estritamente visualizável), há risco de a pandemia assumir no Brasil feições dantescas e cataclísmicas.

Num quadro como esse, seja o que governo federal determinar, as pessoas se isolarão por pânico. Ainda assim, haverá grande mortandade, sem melhorar em nada as perspectivas abissais da economia.

É nesse contexto de saúde pública que devem ser entendidos os últimos passos políticos do governo Bolsonaro.

A saída com briga (que criou o risco de impeachment) de Sergio Moro do governo significou uma ruptura com o eleitorado “lavajatista”, que já fez efeito na popularidade de Bolsonaro. Hoje, pouco menos de 50% da população desaprova o governo, 20% estão em cima do muro (consideram-no “regular”) e 30% apoiam.

Os últimos 30% parecem sólidos, mas se mais “regulares” se converterem para a desaprovação a Bolsonaro, o presidente ficará na situação de governante rejeitado pela grande maioria da população. O caos sanitário que se avizinha pode empurrar esse processo.

Por outro lado, para que o presidente se torne vulnerável a impeachment, os 30%, que vêm se mostrando resistentes, teriam que cair muito mais, como mostra a experiência pregressa brasileira.

Chega-se, portanto, a um equilíbrio em que um presidente impopular perde muito da sua governabilidade, mas mantém um resquício de apoio suficiente para se defender do impeachment.

O namoro de Bolsonaro com o Centrão, desdobramento que representa a antítese do discurso do presidente contra a velha política, é um sinal de que já se está vivendo o equilíbrio mencionado acima. Outro sinal é o fato de o astuto Rodrigo Maia, presidente da Câmara, evitar qualquer movimento na direção do impedimento do presidente.

Nesse contexto de fragilidade do governo, a agenda de reformas liberais que deu sentido à participação de Paulo Guedes no governo Bolsonaro parece já ter se tornado uma miragem.

Hoje, as brigas da equipe econômica são bem mais rasteiras: impedir que a furiosa pulsão política populista desencadeada pela crise econômica do coronavírus estraçalhe de vez a solvência estrutural do setor público brasileiro.

Isolado, desmoralizado e enfraquecido, o ministro da Economia, Paulo Guedes, parece estar indo muito mal nessa missão. O desenho do auxílio emergencial – como também comentado neste espaço, em coluna com o especialista Vinicius Botelho – é um descalabro fiscal e de focalização, que pode gerar esqueletos assustadores.

Na esfera do apoio federal a Estados e municípios, a equipe econômica colecionou derrotas, algumas impingidas pelo próprio governo, e o desenho do pacote está sendo construído ao sabor do poder de barganha das partes, e não de critérios técnicos e racionais.

As ações do Banco Central guardam mais coerência e chances de eficácia, com Roberto Campos Neto, o presidente do BC, aparentemente mantendo melhor capacidade de coordenação e liderança.

Mas também aí há problemas. A liquidez continua empoçada e inacessível para médias, pequenas e microempresas, e a quebradeira neste segmento pode vir a ser épica.

E, na política monetária, o momento é delicado. Felizmente, a inflação continua a se comportar de maneira que nos aproxima das economias maduras, sendo tragada para baixo pela implosão da demanda, e a despeito da disparada do câmbio e do caos fiscal.

Mas os sinais de risco em alta abundam. Em termos de depreciação, fuga de capital e aumento de risco País, o Brasil está claramente pior do que seus pares (países parecidos), que também estão sofrendo. As consequências da insanidade política do governo brasileiro agora estão bem nítidas nos mercados e indicadores econômicos.

Onde vamos parar? É imprevisível. Certo é que o Brasil vive um dos momentos mais sombrios e perigosos das últimas décadas.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 15/5/20, sexta-feira.

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