A impressionante queda do juro

Brasil vive momento histórico em que se aproxima de níveis ineditamente baixos de juros (com inflação controlada). Há causas externas e internas que podem durar alguns anos, e boa parte da queda pode até ser permanente.

Fernando Dantas

24 de julho de 2019 | 21h19

O Brasil vive um momento histórico de queda das taxas de juros. Seja nos prazos mais curtos, seja nos mais longos, o mergulho é impressionante. A taxa básica, a Selic, saiu de 14,25%, em outubro de 2016, para os atuais 6,5%, e quase certamente vai voltar a cair – até 5,5%, 5%, ou até 4,75% (previsão do BofA para o final de 2019).

Mirando as taxas definidas em mercado, em diferentes prazos, as quedas também são cavalares.

O DI de janeiro de 2021 caiu do pico recente (5/9/18) de 10,18% para os 5,42% de hoje, quando esta coluna estava sendo redigida. Tomando-se o DI de 2027, a queda no mesmo período foi de 12,93% para 7,16%.

Quando se passa para as NTNBs, indexadas ao IPCA, tem-se o título com vencimento em 2024 caindo, sempre naquele período, de 5,92% para 2,82%; o de 2026, de 5,94% para 3,11%; e o de 2050, de 5,97% para 3,70%.

São as taxas nominais mais baixas da história a se perder de vista. Caíram abaixo, inclusive, das prevalecentes no início de 2013, quando, no embalo do cavalo de pau (baixista) na política monetária aplicado pelo BC comandado por Alexandre Tombini em agosto de 2011, os juros curtos e longos alcançaram seus recordes anteriores de baixa.

Como se sabe, a queda dos juros naquele momento foi muito passageira, porque a inflação voltou com força. Agora, porém, há sinais de que o movimento pode vir a ser muito mais duradouro, e de que parte dele pode até ser permanente.

Flávio Serrano, economista-chefe do banco Haitong, nota que os ventos baixistas que sopram no cenário externo têm boas chances de durar alguns anos. Com a fraqueza da economia global, o sinal inverteu na direção das políticas monetárias dos principais bancos centrais do mundo. Tanto no Fed quanto no BCE, a ordem agora é estimular, e não retirar os estímulos.

Considerando que o juro básico de equilíbrio nos Estados Unidos, numa perspectiva de equilíbrio e da história chegando aos nossos dias, seja algo entre 3% e 4%, se o Fed vai começar a baixá-lo a partir do patamar atual um pouco acima de 2%, irá tomar tempo até que ele retorne àquela faixa “normal” – este é o raciocínio de Serrano.

Na visão do economista, quando se passa aos fatores domésticos brasileiros, também há tempo, embora não tanto, para se aproveitar dos juros neste nível excepcionalmente baixo. A economia está parada, o desemprego extremamente elevado, e o BC está prestes a embarcar em novo ciclo de corte da Selic. Até que a economia reaja e os juros caminhem de volta para o patamar neutro, pode-se pensar em um ano, um ano e meio, para Serrano.

A boa notícia é que parte da grande queda recente pode ser muito duradoura ou até permanente. A reforma da Previdência – cuja aprovação final, com um nível satisfatório de economias fiscais, é vista agora como bastante provável – cumpre parte (mas não a totalidade) do conserto dos fundamentos da economia brasileira que pode cimentar um juro estruturalmente mais baixo.

Outras reformas no pipeline, ou que nele podem entrar, como a tributária e a administrativa, acenam com perspectivas positivas para o restante da tarefa de acertar os fundamentos – inclusive permitindo que o PIB volte a crescer num ritmo menos medíocre, o que melhora a solvência pública.

Na conta aproximada de Serrano – e que é a de muitos analistas –, olhando a velocidade de cruzeiro um pouco mais à frente, um juro real neutro de 3,5% e uma inflação também deste nível compõem um juro básico neutro em torno de 7%. Quando a economia aquecer de forma inflacionária, a política monetária poder levar a Selic para algo em torno de 9%; se fraquejar, cai na mesma proporção para baixo.

“Talvez estejamos consolidando as condições para ter um juro básico nominal de um dígito de forma sustentada”, diz o economista do Haitong.

Já a queda estrutural do juro real – que ninguém sabe ao certo até onde irá; e também, por outro lado, se permanecerá – pode levar a economia brasileira para um novo território, tanto do ponto de visto macroeconômico (risco e solvência pública, por exemplo), como microeconômico (condições de crédito).

É um processo que pode mudar positivamente, e de forma profunda, a economia e a sociedade brasileiras. O que justifica certa prudência da política fiscal e monetária neste momento em que finalmente o País parece se aproximar de forma sustentada dessa terra prometida.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 24/7/19, quarta-feira.