A indústria brasileira e a crise argentina

Desempenho decepcionante da indústria brasileira em 2018 tem como uma das causas relevantes a crise econômica da Argentina e a redução das exportações para o nosso vizinho, especialmente de veículos. Conversei com Aloisio Campelo da FGV.

Fernando Dantas

09 Janeiro 2019 | 20h30

A indústria foi uma das grandes decepções de 2018. Em 2017, a indústria (PIM-PF) cresceu 2,6%, mas deve ter desacelerado para 1,1% em 2018, de acordo com a projeção do Ibre/FGV. Em novembro, conforme divulgado ontem pelo IBGE, a produção industrial cresceu apenas 0,1%, na comparação dessazonalizada com outubro. O Ibre prevê o mesmo número pífio em dezembro, e com uma queda interanual (isto é, na comparação com dezembro de 2017) de 3,6%.

Aloisio Campelo, superintendente de estatísticas públicas da FGV, e principal responsável pelas sondagens de confiança da instituição, observa que a história do mau desempenho da indústria em 2018 foi peculiar, e pode ter tido uma influência significativa da crise argentina, que afetou as exportações brasileiras de veículos. O diagnóstico é compartilhado pela equipe de análise conjuntural do Ibre.

Em termos de quantidades, as exportações brasileiras de veículos automotores, reboques e carrocerias cresceram 28,2% em 2017 e devem recuar cerca de 8,3% em 2018. Na comparação interanual trimestral, os recuos começam em maio (trimestre terminado em maio), com -2,1%, e crescem até -20,6% em dezembro. Campelo crê que o fato de o início das quedas se dar no trimestre terminado em maio, mês da greve dos caminhoneiros, é mais uma coincidência. O destaque entre os fatores da queda ao longo do ano é mesmo o agravamento da crise argentina.

A história da produção industrial ao longo de 2018, que se entrevê tanto na evolução mensal da PIM-PF quanto no índice de confiança do setor, é a de um segundo semestre ruim, que se segue justamente a uma razoável demonstração de resiliência ao grande impacto da crise dos caminhoneiros em maio.

Na PIM-PF, houve um drástico recuo de 11% em maio (na comparação dessazonalizada com abril), mas seguido de um salto compensatório de 12,8% em junho no mesmo indicador. A partir daí, entretanto, seguiram-se quatro meses com números negativos, próximos da estabilidade em julho e outubro, e mais pronunciados em agosto e setembro.

No índice de confiança da indústria com ajuste sazonal, por sua vez, houve recuperação no início do ano, e a manutenção do indicador um pouco acima de 100 entre fevereiro e julho.

Campelo nota que o impacto da greve dos caminhoneiros na confiança da indústria foi suave: o índice caiu de 101,1 em maio para 100,1 em junho (como a greve eclodiu no final de maio, 95% da coleta de dados já havia sido realizada, o que explica que o efeito do movimento na confiança tenha sido captado pelo índice de junho). A queda de todos os demais índices de confiança entre maio e junho – dos serviços, do comércio e da construção, assim como o empresarial e o dos consumidores – foi superior à queda da confiança da indústria no mesmo período.

Entre julho e outubro, entretanto, o índice de confiança da indústria recuou para 94,3. Em dezembro ainda estava em 94,8. Todos os demais índices de confiança, mencionados acima, subiram entre julho e dezembro, e em ritmo, de forma geral, expressivo: o de serviços, por exemplo, saiu de 87,5 em julho para 94,7 em dezembro; o de comércio, de 88,8 para 105,1; e o do consumidor, de 84,2 para 93,8.

Com exceção do comércio, todos os índices de confiança ainda se encontravam abaixo de 100 em dezembro, o que mostra que a divergência recente da indústria em relação ao resto da economia é mais uma história de mudança de nível, e não de nível em si.

O nível de utilização da capacidade instalada (NUCI) da indústria, por sua vez, também trouxe más notícias no período mais recente, recuando de 76,9% para 74,6%. O nível médio entre 2010 e meados de 2015 foi de 82%.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 9/1/19, quarta-feira.