A inflação de serviços e a Selic

Samuel Pessôa, da Reliance e do Ibre/FGV, chama atenção para alta da inflação de serviços na leitura interanual e analisa possíveis causas da elevação e seus respectivos impactos na política monetária.

Fernando Dantas

05 de fevereiro de 2019 | 10h04

Dada a fraqueza da recuperação da economia brasileira, ganha a força a discussão sobre se o Banco Central deveria retomar os cortes da Selic, que já está no seu nível recorde de baixa, em 6,5%. No último trimestre de 2018, uma série de indicadores reforçou a preocupação com a debilidade da retomada.

O Copom, que fixa a Selic, se reúne (5/2, terça) hoje e amanhã.

Os argumentos pró e contra são inúmeros, e o debate é complexo. Samuel Pessoa, sócio e economista-chefe da gestora Reliance, e pesquisador associado do Ibre/FGV, chama a atenção para a dificuldade de aferir com mais precisão o grau de desaquecimento da economia brasileira.

“Quando a gente olha os dados quantitativos da atividade econômica, parece que há uma ociosidade muito grande, mas, apesar de a inflação estar muito baixa, ela parou de cair e a inflação de serviços está em alta nos últimos quatro meses, na frequência interanual, isto é, comparando um período com igual período do ano anterior”, observa o analista.

Assim, a inflação de serviços (fora passagem aérea) foi de 0,42% em janeiro de 2019, comparado a 0,29% em janeiro de 2018. Já no trimestre terminado em janeiro de 2019, o indicador ficou em 1,07%, comparado a 0,79% no trimestre terminado em janeiro de 2018.

O problema, continua Pessoa, é como interpretar essa alta na margem da inflação dos serviços nos últimos meses.

Uma primeira leitura é de que o hiato de recursos na economia não seria tão grande quanto os números quantitativos de atividade sugerem – neste caso, a explicação para o descompasso entre estes indicadores e o hiato seria uma combinação de baixa produtividade, desperdício de investimentos ou queda de eficiência do capital maiores do que o percebido. Se for assim, as medidas mais padrão de ociosidade estariam erradas, e esta seria menor do que aparenta ser. E uma consequência seria a subida da inflação de serviços interanual. Neste caso, é mais um motivo para o Banco Central (BC) não se apressar a cortar a Selic. Talvez até, num momento posterior, tenha que subir.

Entretanto, Pessoa observa que pode haver outra razão para a alta da inflação de serviços, que não está ligada à demanda, e, portanto, não contraria um quadro de hiato muito elevado.

Ele observa que a alta também pode estar ligada a uma indexação que ainda existe entre alguns itens importantes da inflação de serviços e o IGP, que subiu mais fortemente em 2018 devido à desvalorização do real. Este ano, com o mercado cambial mais calmo e o dólar mais estável, o IGP deve ter uma trajetória mais baixa, o que levaria a nova redução da inflação de serviços em 2020. Nesse cenário, a elevação interanual na inflação de serviços seria “um pequeno pico, que vai arrefecer”, nas palavras do economista.

Pessoa admite que ainda não tem como responder à dúvida entre os dois cenários explicativos descritos acima. De qualquer forma, o economista opta pelo lado mais conservador na discussão sobre a Selic, e considera correto que o Banco Central mantenha a taxa básica no nível atual até que se consiga mais visibilidade sobre este e outros aspectos pouco claros da atual conjuntura macroeconômica.

Evidentemente, dois determinantes das decisões futuras do BC são o cenário internacional, onde a recente reviravolta “dovish” do Fed reforçou um cenário positivo (que influencia o câmbio brasileiro no sentido da apreciação e, portanto, é um fator baixista da inflação); e a expectativa de aprovação da reforma da Previdência.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 4/2/19, segunda-feira.

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