A inflação e a postura do FED

Mercados operam com visão de que BC americano pode encerrar alta de juro básico em 3,5%, mas novos dados da inflação e os sinais de disposição (ou não) do FED de combatê-la podem bagunçar o coreto.

Fernando Dantas

02 de agosto de 2022 | 19h44

Com o recuo na margem de 0,9%, em termos anualizados, do PIB norte-americano no segundo trimestre, somam-se dois trimestres consecutivos de queda, o que, numa definição algo arbitrária, configura recessão.

Dados recentes apontam que o aperto das condições financeiras já desacelerou os investimentos nos Estados Unidos, especialmente no setor residencial. O consumo de bens duráveis também foi afetado.

Na verdade, ainda há muitas dúvidas sobre o real estado da atividade econômica norte-americana. O consumo de serviços continua bastante forte e é possível que a desaceleração do investimento seja um ajuste no nível, em função do forte crescimento nos últimos trimestres, a ser seguido por nova retomada.

Adicionalmente, a redução de estoques tirou 2 pontos porcentuais (pp) do crescimento no segundo trimestre, num sinal de que ainda há dificuldades da oferta em atender a demanda.

De qualquer forma, a aposta que parece mais estar influenciando os mercados recentemente é a de que o Federal Reserve (Fed) vai parar o ciclo de aperto monetário quando os Fed Funds, a taxa básica, atingirem 3,5%. Hoje, estão em no intervalo 2,25-2,5%.

Em relatório divulgado hoje, Louis-Vincent Gave, CEO da Gavekal, empresa internacional de pesquisa financeira, traça cinco cenários possíveis a partir da situação atual.

No primeiro deles, a economia e a inflação dos Estados Unidos desaceleram, e o Fed não tem muito mais aperto monetário a fazer. Ele nota que esse parece ser o cenário em que os mercados apostam, e que, se confirmado, é altamente positivo para as bolsas norte-americanas.

No segundo cenário a economia dos EUA desacelera mas a inflação praticamente fica na mesma, e o Fed, mais preocupado com o impacto de longo prazo do baixo crescimento do que com a inflação, para de subir os Fed Funds agressivamente.

Esse é um cenário no qual o dólar recua, e as commodities, metais preciosos e bônus e ações de países emergentes avançam. Seria positivo, portanto, para o Brasil.

O terceiro cenário repete a combinação de desaceleração da atividade mas não da inflação nos Estados Unidos, mas nele o Fed continua o aperto monetário, e os mercados em geral entram em novo período de queda.

No quarto cenário, a atividade, depois de andar de lado por um tempo, volta com vigor, a inflação permanece forte e o Fed prossegue elevando os juros. Segundo Gave, “isso levaria a um dólar muito forte, que iria atingir a maior parte dos mercados de ativos como uma bola de demolição”.

Os Estados Unidos iriam drenar a liquidez global e o único setor que o analista considera que teria melhores chances seria o de energia.

O quinto cenário é descartado pelo próprio Gave como irrealista: a atividade econômica nos Estados Unidos se recupera e a inflação recua.

Ao analisar as probabilidades dos quatro primeiros cenários, o analista acrescenta três fatores muito relevantes na atual conjuntura global, na sua abordagem. O primeiro é a Europa, que classifica como um “buraco negro” na economia mundial, atingida por preços de energia que subiram de cinco a dez vezes e pela possibilidade de uma nova onda de Covid que ultrapasse a capacidade dos hospitais.

Desaceleração forte, problemas de oferta e crise política podem ser alguns dos ingredientes que a Europa vai injetar no cenário global, de acordo com Gave.

Outra fonte de dor de cabeça no radar do analista é a China, com permanência de problemas imobiliários, perda de ritmo com a paralisação pela Covid este ano, dívidas e questões demográficas.

O terceiro fator – bem manjado nos trópicos – é que, quando a inflação supera 7%, ela tende a permanecer alta ou acelerar por vários anos, e trazê-la de volta para 3% normalmente exige mão pesada no aperto monetário.

Conjugando esses fatores, Gave acredita que o cenário mais provável seja o pior para o Fed, de desaceleração dos EUA e do mundo, enquanto a inflação permanece elevada.

Assim, na sua visão, se continuarem a vir surpresas altistas na inflação, e o Fed parecer ‘dovish’ (isto é, mais preocupado com atividade do que com inflação), os mercados vão começar a precificar o segundo cenário – que, como notado acima, seria até positivo para o Brasil, pelo menos no curto prazo.

Se o Fed se mostrar mais duro com a inflação, a precificação será do terceiro cenário, que leva à queda dos mercados. Gave considera que o Fed tem sido hesitante no processo de reduzir seu balanço (o que em termos quantitativos significa aperto), o que pode transmitir aos mercados a sensação de que a autoridade monetária mais importante do mundo está sem vontade ou capacidade de praticar um aperto relevante.

De qualquer forma, ele conclui, as próximas divulgações da inflação americana tem o potencial de mover fortemente os mercados.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 2/8/2022, terça-feira.