A inflação e os alimentos

Grãos sobem e pressionam inflação, mas isso não deve interferir nos planos do Banco Central.

Fernando Dantas

07 Junho 2016 | 23h12

A alta do preço dos alimentos não deve alterar os planos do Banco Central (BC) em termos do esperado ciclo de queda da Selic, de acordo com analistas ouvidos pela coluna.

Marco Franklin, sócio da gestora Platina Investimentos, no Rio, faz um acompanhamento detalhado da produção de grãos e dos fatores climáticos e de mercado que a influenciam. Para ele, a alta dos alimentos prejudica a inflação de 2016, mas até abre espaço para uma queda mais expressiva em 2017.

Nos últimos três meses, ele recapitula, houve aumento de 20% do preço internacional do milho e de quase 35% no da soja, ligado a problemas nas safras do hemisfério Sul. Ocorreu quebra da safra de soja na Argentina e decepção em relação à brasileira.

No caso do milho no Brasil, diz Franklin, “a quebra da safrinha foi muito expressiva – a expectativa era de 57 milhões de toneladas e deve ser em torno de 48 milhões”.

Como resultado, prossegue o analista, o milho vem sendo negociado no mercado doméstico com prêmio de 50% em relação a Chicago. Ele prevê que a partir de junho a pressão cairá, mas o preço não vai se regularizar. “Um ágio, em nível menor, deve se manter por mais um ano, e só vai voltar ao normal na safrinha de 2017”.

Segundo Franklin, “o problema hoje não é comprar milho a qualquer preço, é achar milho para comprar”. A alta dos grãos eleva o preço da ração e afeta as aves, bovinos e suínos.

O relativo otimismo do gestor para 2017 baseia-se em parte nos prognósticos para safra norte-americana de grãos. O clima seco tem permitido um plantio acelerado, o que diminui os riscos do ciclo de produção, e relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) aponta que a qualidade da lavoura, tanto no caso da soja quanto do milho, é muito boa.

Adicionalmente, os preços altos dos grãos no mercado brasileiro podem estimular o plantio, embora, neste caso, Franklin ressalve que a quebra de safras recentes descapitalizou o setor.

Outro fator que pode ter contribuído para a alta recente dos grãos, segundo o economista, é o aumento das importações pela China. Quanto a questões climáticas, ele diz que a discussão atual sobre uma possível La Niña (resfriamento das águas do Pacífico na costa da América do Sul) aponta que o fenômeno aconteceria mais no final do ano, e não prejudicaria a safra americana de 2016/2017.

Em resumo, Franklin diz que “em termos de preços de grãos, o estrago está feito, e os preços tendem a se manter ou até cair, se o mercado se reequilibrar”. Ele nota que o milho no mercado nacional, cuja saca fechou ontem a R$ 53,20, tem seu contrato para setembro na BM&F negociado a R$ 43,30. “Os preços dos alimentos devem puxar a inflação este ano e abrir espaço para desinflacionar em 2017”, conclui Franklin.

Alexandre Ázara, economista-chefe da gestora Mauá Capital, considera que os alimentos, por serem movidos por componentes sazonais e climáticos, não mudam as projeções de longo prazo da inflação. “Minha projeção para este ano é de 6,8%, mas, mesmo supondo que vá a 7%, isto não muda o fato de que a inflação tem tudo para ficar entre 5% e 5,5% em 2017”, ele diz.

Já Alexandre Póvoa, sócio-fundador gestora Canepa, preocupa-se com a corrente de mercado que ele considera excessivamente otimista quanto à capacidade de o Banco Central cortar juros no curtíssimo prazo. O analista acha que a inércia inflacionária, reforçada pelos erros dos últimos anos da política monetária e fiscal, afeta mesmo o preço dos alimentos. “É claro que tem muito a ver com clima e outros fatores, mas se a demanda estivesse comandando a história, numa recessão desta magnitude haveria menor capacidade de repassar, mesmo com os choques de oferta”. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 7/6/16, terça-feira.