A inflação global e o Brasil

Pressões inflacionárias ocorrem no mundo todo mas, no Brasil, situação do Banco Central é das mais difíceis.

Fernando Dantas

22 de novembro de 2021 | 12h53

Entre os diversos temas comentados hoje (sexta-feira, 19/11) durante palestra no Meeting News, organizado pelo grupo Parlatório, Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central (BC), afirmou que a “tese de inflação temporária de bens está cada vez mais obsoleta; ficou um aumento muito grande na demanda de bens”. As declarações foram reportadas por Thais Barcelos e Eduardo Ferreira, do Broadcast.

Também hoje, Christopher Waller, diretor do Fed, BC dos EUA, criticou o discurso de que a escalada recente da inflação norte-americana é temporária, segundo reportagem de André Marinho, do Broadcast.

Sem dúvida, a alta inflacionária mais forte e persistente do que o antecipado nesse período de saída da pandemia – que ainda está se desenrolando, com idas e vindas – é hoje uma preocupação central das autoridades econômicas e monetária e dos mercados.

Em seus comentários hoje, Campos Neto buscou contextualizar a disparada da inflação no Brasil no cenário global, em que fenômeno semelhante também está ocorrendo.

É um fato inegável, mas o BC do Brasil está particularmente encalacrado. E seu presidente, mesmo quando aponta fatos inegáveis, tem dificuldades crescentes em não desagradar gregos e troianos.

Segundo um gestor do Rio, Campos Neto “está usando a inflação global como desculpa para justificar por que a inflação subiu tanto por aqui”.

O esforço do BC é para diferenciar o último período de inflação muito acima da meta no Brasil, no final do governo Dilma, quando o mesmo não ocorria no resto do mundo, do que acontece agora, em que há um fenômeno inflacionário sincronizado.

“Isso até é verdade, mas o BC está misturando o choque global com o grande erro que eles fizeram no ano passado de colocar a Selic em 2%”, continua o gestor.

Na sua visão, o juro real muito negativo em 2020 estimulou a depreciação do câmbio que teve grande efeito na inflação brasileira.

Esse erro foi agravado pela prolongada situação “atrás da curva” do discurso e da sinalização do BC: desde um “forward guidance” de manutenção de juros baixos que logo foi abolido e revertido até a escalada do ritmo de alta da Selic, quase sempre acima do último sinal da autoridade monetária e abaixo da precificação do mercado de juros.

Agora, já se chegou ao ponto em que o ritmo de alta é indiscutivelmente veloz para padrões históricos, com 1,5pp por reunião, mas ainda assim há uma corrente de analistas que pede 2pp.

O problema, segundo o gestor mencionado acima, é que, talvez pelo temor de “ter perdido a fama de mau” com a política monetária frouxa de 2020, o BC de Campos Neto mantenha agora o discurso de que a meta de 3,5% para 2022 é para valer, o que não é mais crível para grande parte do mercado.

A última projeção da pesquisa Focus para o IPCA do próximo ano é de 4,79%, mas o número vem crescendo há 17 semanas consecutivas. Muitos analistas já estão acima de 5%, e há até quem esteja acima de 6%.

“Todo mundo enxerga que o custo de produto, isto é, o tamanho da recessão necessária para atingir a meta em 2022, isto é, para levar a inflação de quase 11% para 3,5%, é tão grande que não faz sentido nenhum ”, critica o gestor.

Para ele, “o desafio é 2023 e tem que elevar o juro para caramba”.

Na sua visão, “o BC queimou sua credibilidade no ano passado e quer recuperar na base de prometer algo inviável, o que não vai dar certo”.

Por outro ângulo, há analistas, como Luciano Sobral, economista-chefe da NEO Investimentos, em São Paulo, que veem algum perigo na hipótese de que a disparada da inflação nos Estados Unidos e no Brasil é quase um decalque uma da outra.

Sobral nota que, por aqui, a economia parou, com um crescimento no segundo semestre perto de zero, e projeções de PIB em 2022 que convergem para 1% ou até menos que 1%.

O economista nem de longe nega o componente global do surto inflacionário brasileiro, com a inflação “importada” via commodities e bens industriais.

Mas ele pondera que, no Brasil, parcela expressiva da inflação parece ainda mais de oferta – gargalos nas cadeias produtivas – do que de demanda, o que seria a combinação, como nos Estados Unidos, de desvios mais duradouros na direção de maior consumo de bens com uma economia razoavelmente aquecida.

Nos Estados Unidos, nota o economista, as transferências do governo associadas à pandemia se aproximaram de 20% do PIB. O Brasil foi muito generoso com o auxílio emergencial em 2020, mas depois o benefício foi minguando e hoje a situação de renda e consumo das massas não está nada fácil.

O que leva Sobral a avaliar que o BC está numa quadra extremamente difícil.

Para ele, o erro do BC não é ter levado a Selic a 2% quando de fato quase todo mundo tinha uma ideia muito equivocada do que viria depois, mas foi cometido mais adiante, quando o Copom “entrou na dinâmica de acelerar o ritmo da alta à medida que a situação inflacionária ia piorando”.

Seria melhor ter traçado um plano consistente de ação, como Ilan Goldfajn fez quando assumiu o BC em 2016, e manter-se nele (não que Sobral considere que seria fácil fazer isso no turbilhão econômico da pandemia).

O padrão muito reativo de política monetária do BC desde pelo menos o início da pandemia fez com que “o Copom acabasse sendo levado pela curva de juros, em vez de guiá-la, mesmo na parte curta da curva”.

E chegou-se à situação atual na qual o BC insiste na meta de 2022, o que não faz sentido, enquanto o mercado pede um aumento ainda maior do ritmo e possivelmente do nível final do ciclo de alta de juros, com a economia quase parada.

Sobral observa que o juro real precificado para o fim de 2022 já está em 6%, muito acima do “segundo lugar” global, que é a Rússia, com 2,5%.

“Não sei se tem muito ganho em levar esses 6% para 8% para provar que o BC é durão”, pondera o economista.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 19/11/2021, sexta-feira.