A inflação voltou

Enorme depreciação do câmbio (ligada à farra fiscal) e impulso à demanda dos programas sociais da pandemia e do gasto do dinheiro poupado pela classe média durante a quarentena trouxeram de volta "a velha senhora". Agora o Banco Central vai ter que cortar um dobrado.

Fernando Dantas

27 de outubro de 2020 | 11h42

Agora já não há mais dúvida. A inflação está de volta. O IPCA-15 de outubro, de 0,94%, ficou acima do teto das estimativas do Projeções Broadcast, de 0,93%, e significativamente superior à mediana, de 0,82%.

Além do número fechado, a composição preocupou. André Braz, especialista em preços do Ibre/FGV, vê um espalhamento gradual da inflação. Bens como materiais de construção, eletrodomésticos, eletrônicos e móveis, por exemplo, estão subindo muito. Para o analista, pode ser pelo uso da poupança que a classe média fez durante o isolamento social.

Já a pressão de alimentos e bebidas, com alta de 2,24% no IPCA-15, persiste, como era de se esperar, mas a alta já se espalha para itens como vestuário, por exemplo, que subiu 0,84%.

A enorme desvalorização do real, de quase 30% este ano, e de 40% desde o início de 2018, está conseguindo se transmitir um pouco mais aos bens negociáveis internacionalmente, como seria de se supor, comparado aos últimos anos. A demanda reativada pelos programas de apoio à renda e ao emprego da pandemia, naturalmente, ajudam nesse processo.

A combinação de alta internacional de commodities com desvalorização do real levou à enorme elevação dos índices de preço no atacado, superando 25% em um ano. É difícil imaginar onde esses custos vão parar se não derem um jeito de chegar, ao menos parcialmente, no varejo.

Segundo um gestor de recursos no Rio, “não tem como haver tanta depreciação e não trazer inflação [ao consumidor], não tem jeito, é um processo que está no início e vamos rodar por algum tempo com inflação mais alta”.

As metas de inflação, que estavam muito folgadas, já não estão mais. A de 2021 começa a ficar apertada, de acordo com algumas projeções. A meta deste ano é de 4%, e a de 2021, de 3,75%. O gestor tem projeções de IPCA de 3,3% em 2020 e 3,5% no ano que vem, mas vai aumentá-las depois dos últimos resultados.

Braz, do Ibre/FGV, tem entre 3,3% e 3,5% para 2020, e entre 3,5% e 3,75% em 2021, com a projeção já “encostando” na meta do próximo ano.

Em relação a 2020, ele nota que sua atual previsão de IPCA “era algo inimaginável há dois meses, quando todo mundo achava que inflação ia terminar o ano em torno de 2%”.

O trunfo remanescente contra a inflação são os serviços, que já vinham combalidos antes da pandemia por causa da grande ociosidade na economia, e que sofreram uma fortíssima pancada adicional com o isolamento social.

Mas o gestor observa que os serviços são um freio à inflação até certo ponto, já que a economia brasileira é muito indexada. Ainda que os serviços subam menos que os produtos industriais, eles podem acabar sendo puxados também se as pressões não se arrefecerem. No passado, já houve inflação de serviços alta no Brasil mesmo com a economia em marcha lenta.

No final das contas, como sempre acontece no Brasil, muito vai depender da política fiscal de 2021. A forte desvalorização do câmbio está ligada à percepção de risco de solvência, com a explosão da dívida pública por causa dos gastos com a pandemia.

Normalmente, quando as commodities sobem no mercado internacional, a balança comercial brasileira fica mais superavitária, e o conforto na posição externa é um fator de valorização do câmbio. O fortalecimento do real acaba compensando o impulso inflacionário das commodities.

Agora, porém, mesmo com as contas externas melhorando, o câmbio ainda não reagiu, o que é atribuído ao risco fiscal.

Para o gestor mencionado na coluna, é certo que a Selic terá que subir em 2021. Mas ele vê dois cenários. Se a política fiscal for acertada, é possível um ciclo de alta mais suave, e começando mais para o meio do ano. Se a bagunça das contas públicas perdurar, no entanto, ele considera provável uma sucessão de altas fortes da taxa básica logo a partir do início de 2021.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 23/10/2020, sexta-feira.