A janela internacional

Brasil parece ter ganho tempo para se ajustar. O desafio é não desperdiçar essa oportunidade.

Fernando Dantas

26 Maio 2015 | 10h36

O Brasil ganhou mais tempo para ajustar a economia, graças principalmente a renovados sinais de fraqueza da atividade nos Estados Unidos. A economia americana cresceu apenas 0,2% no primeiro trimestre, o que pode inclusive ser revisto para baixo. A expectativa para o segundo trimestre do modelo de previsão do Fed de Atlanta (GDPNow) apontava 0,7% no dia 19 de maio. Mesmo que possa haver flutuações na expectativa de crescimento, em função de indicadores econômicos melhores ou piores que vão sendo divulgados, o viés ainda é de que o Fed pode ter menos pressa em iniciar a elevação do juro básico este ano, embora deva fazê-lo, e de que terá cuidado para evitar pinotes nos juros mais longos.

Mesmo o cenário de juros longos mais altos nos Estados Unidos pode não ser o “inferno das emissões externas”, como coloca recente relatório da LCA. A consultoria estima que não há correlação relevante entre o juro longo americano e as emissões de papéis brasileiros no exterior. Mesmo o impacto indireto, via risco Brasil medido pelo Embi, não é importante.

Se essa são indicações tranquilizadoras para a equipe econômica, resta saber como a relativa trégua dos mercados no momento impacta as perspectivas econômicas brasileiras de curto, médio e longo prazo.

Na semana passada, conforme reportado por Aline Bronzati, da Agência Estado, o economista-chefe do Itaú-Unibanco, Ilan Goldfajn, sintetizou a questão acima como a de um cenário de “não crise, mas sem bonança”. É provável que esta seja uma boa definição para a percepção que é compartilhada por uma corrente significativa do mercado.

Assim, supondo que a equipe econômica consiga entregar resultados fiscais sólidos em 2015 e 2016, ainda que não chegue nas metas, e que o Banco Central consiga aproximar ao máximo o IPCA do centro da meta de 4,5% em 2016, é bem possível que o fantasma da perda do grau do investimento seja afastado. Mas o que pode se ter, neste caso, é uma economia que cresce pouco e que terá sofrido mais algum aumento da carga tributária, com investimento público pífio e juros reais ainda elevados, e apresentando fraca geração de emprego.

Não são nada animadoras as estimativas de crescimento para 2016 e 2017. A mediana do Focus têm, respectivamente, 1% e 2%. O Itaú projeta apenas 0,7% para 2016. É difícil prever como política e economia vão interagir no cenário de “não crise, mas sem bonança”, mas a possibilidade de que surjam obstáculos cada vez mais fortes à agenda de consolidação fiscal e reformas estruturais não é pequena.

Samuel Pessôa, sócio e economista-chefe da gestora Reliance, observa que a atual rodada de ajuste fiscal não dá conta do desafio das contas públicas de médio e longo prazo, que é o de fazer com que as despesas primárias não cresçam acima do PIB. Ele nota que as despesas previdenciárias e de programas sociais crescem uma média de 0,3 ponto porcentual de PIB desde 1991.

“O que eles vão fazer são reformas aguadas e venda do que puder vender de ativos com concessão e privatização, além de segurar investimentos, para fechar o fiscal nos próximos dois anos”, diz o economista. Evidentemente, é algo bem aquém das mudanças necessárias para enquadrar o gasto no PIB.

Pessôa diz que está mais otimista em relação à desmontagem do que chama de “agenda nacional-desenvolvimentista”, caracterizada pela pesada intervenção do Estado no funcionamento da economia. Mas mesmo aí os sinais não são dos melhores. Foi só o ministro das Minas e Energia, Eduardo Braga, dizer que poderia haver mudanças nas demandas de conteúdo nacional em petróleo e gás para a presidente Dilma Rousseff, poucos dias depois, descartar publicamente a ideia.

A janela de liquidez dos mercados internacionais está dando mais tempo para o Brasil se ajustar. O risco é que um ajuste apenas de curto prazo acabe levando ao desperdício de mais essa oportunidade. Neste caso, o fraco crescimento por vários anos pode criar condições políticas adversas que empurrem o País na direção contrária das reformas que poderiam relançar um processo mais robusto de desenvolvimento. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 20/5/15, quarta-feira