A lição produtiva da agropecuária

Fernando Dantas

09 de agosto de 2013 | 17h31

Num momento em que todos falam sobre a necessidade de elevar a produtividade no Brasil, pouca atenção é dada ao setor onde o indicador vem registrando um desempenho estelar nos últimos anos: a agropecuária.

(abaixo deste post, fiz uma atualização do blog, com diversas colunas publicadas nos últimos dias na AE-News Broadcast)

Marcos Jank, sócio-diretor da Plataforma Agro, conjunto de empresas de consultoria e investimento e estudo em agronegócio, vê uma grande inflexão na agropecuária brasileira a partir dos anos 90. Segundo os números de apresentação que ele fez em recente seminário sobre produtividade no Insper, em São Paulo, a produtividade total dos fatores (PTF) do campo no Brasil, cujo aumento anual ficou em pouco mais de 1% no período entre 1975 e 1989, deu um salto para 2,7% entre 1990 e 1999, e para 5,6% entre 2000 e 2009.

Este desempenho faz um forte contraste com os serviços e a indústria. Tomando-se as contas do economista Regis Bonelli, do Ibre/FGV, que também participou do seminário do Insper, a produtividade do trabalho da agropecuária no Brasil cresceu a um ritmo anual de 4,1% entre 2000 e 2012, comparado a -1% para a indústria de transformação e 0,3% dos serviços.

Muitos analistas lamentam a pobre performance da indústria no Brasil nos últimos anos, e preocupam-se com o fato de que o País está cada vez mais dependente dos setores de matérias-primas.

Mas economistas como Jank, que já foi presidente da Única, apresentam essa questão de uma forma bem diferente: não seria o caso de comemorar o fato de que pelo menos um setor da economia brasileira apresenta os resultados de produtividade que seriam desejáveis para a economia como um todo? E, indo além, será que não seria o caso dos demais setores prestarem atenção ao que ocorreu na agropecuária, para tirar as lições que foram possíveis para melhorar a própria produtividade?

Normalmente, a história de sucesso da economia brasileira é interpretada pelo prisma do avanço tecnológico, com a Embrapa sendo apresentada como um modelo de política racional de apoio estatal à inovação. Jank concorda com esta análise, mas acrescenta que a Embrapa não está sozinha – há também instituições estaduais de pesquisa agropecuária –  e que há outras causas importantes do boom de produtividade no setor, para além da tecnologia.

A segunda grande explicação, para o economista, é a desregulamentação e a liberação da agropecuária no Brasil, especialmente a partir dos anos 90. Ele lembra que, no passado, o setor no Brasil conviveu com preços garantidos, controle de exportações e importações e crédito altamente subsidiado (que ainda há hoje, mas em níveis bem menores do que no passado, na sua opinião).

Com a liberalização, a agropecuária brasileira teve de adaptar-se para competir internacionalmente com muito menos favorecimento do governo, e enfrentando a competição de países e regiões onde há muito mais subsídios. E, apesar das dificuldades, o setor saiu vitorioso. Hoje, na visão de Jank, é a única parte da economia brasileira verdadeiramente globalizada, competindo nas primeiras posições globais em termos de volumes em diversos produtos agrícolas e em carnes, e marcando sua presença em mais de 150 países.

O terceiro grande fator do avanço da produtividade, finalmente, foi a migração dos produtores gaúchos e paranaenses para toda a imensa faixa de território que se estende pelo Centro-Oeste e por partes do Nordeste.

“O agricultor gaúcho que tinha 50 hectares de terra e cinco irmãos migrou para o Centro-Oeste e hoje tem 500 hectares”, diz Jank. Para ele, os ganhos de escala proporcionados por esta migração também foram fundamentais para o salto de produtividade da agropecuária brasileira.

No lado dos problemas, ele cita a péssima infraestrutura de escoamento da produção. “A produtividade que se ganha dentro da Fazenda é perdia em boa parte nas estradas e nos portos”, ele lamenta.

De qualquer forma, o sucesso da agropecuária deixa uma lição para os outros setores, e especialmente da indústria, na visão de Jank: não é com proteção, fechamento de mercados, subsídios e intervenções excessivas que se estimula o aumento da produtividade.

Este artigo foi originalmente publicado na AE-News/Broadcast

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast. E-mail: fernando.dantas@estadao.com

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