seu bolso

E-Investidor: O passo a passo para montar uma reserva de emergência

A mãe de todos os choque de incerteza

Crise da Covid-19 é um evento que traz níveis de incerteza descomunais num momento de efervescente desenvolvimento dos índices que tentam justamente medir a incerteza.

Fernando Dantas

30 de julho de 2020 | 11h23

Na abertura de recente artigo na newsletter Psyche, Lorenzo Zucca, professor de Direito no King’s College em Londres, escreve que “William Shakespeare viveu numa era de incerteza”.

O artigo efetivamente é sobre como Shakespeare coloca a incerteza no centro da sua obra – como no famoso “to be or not to be” de Hamlet –, mas chama a atenção o fato de que “alta incerteza” é possivelmente uma característica de quase todas as eras da história humana.

Ainda assim, os últimos 15 anos estão caprichando nesse quesito. Pouco depois, em termos históricos, da grande crise global de 2008/2009, terremoto econômico-financeiro que só encontra paralelo na Grande Depressão dos anos 30 do século passado, temos agora a pandemia do coronavírus que, de fato, não tem nenhum paralelo histórico.

Há, é claro, a gripe espanhola de 1918, que pode ser comparada à Covid-19 em virulência, e eventos como a Peste Negra, em meados do século XIV, que foi incomparavelmente pior.

Mas o que é inédito da atual pandemia é que ela atinge a humanidade em um momento em que, na maior parte dos países, é politicamente inaceitável um grande aumento evitável de óbitos, o que levou às quarentenas – e estas a uma paralisação abrupta das economias, em tempo de paz, que foi de fato uma experiência histórica nova.

Outra novidade da nossa época é que a questão da incerteza foi apropriada por economistas e profissionais de finanças, tornando-se uma variável a ser quantificada e medida, como qualquer outra.

A literatura acadêmica mostra que o aumento da incerteza se correlaciona com a redução dos investimentos e do consumo de bens duráveis caros – sendo, portanto, um freio muito relevante da atividade econômica.

Os índices de incerteza têm uma história relativamente curta, mas viram crescer enormemente a sua relevância com a dupla pancada da grande crise global e da pandemia.

O coronavírus, em especial, junto com seus impactos econômicos, representa um choque cataclísmico de incerteza. O Indicador de Incerteza da Economia (relativo ao Brasil) do Ibre-FGV saiu de 115,1 pontos em fevereiro, pré-pandemia, para um pico histórico de 210,5 pontos em março.

Na prévia de julho, o indicador já havia recuado para 167,1 pontos, “devolvendo” 46% da alta do bimestre março-abril.

Um nível de 100 pontos é, simplificadamente, o parâmetro “normal” de incerteza do IIE-Br, cuja série remonta a 2000. Eventos traumáticos, internacionais e domésticos, como o atentado das torres gêmeas (2001), a grande crise global (2009) e o período que precedeu o impeachment da presidente Dilma Rousseff (2015) levaram o IIE-Br a picos muito inferiores ao recentemente atingido.

Na verdade, o patamar acima de 200 alcançado durante a pandemia é absolutamente estratosférico em relação ao histórico do índice.

Se quase tudo relativo à Covid-19 é ruim, um pequeno consolo é que a coincidência entre o choque nuclear de incerteza da pandemia e uma fase de efervescência da tecnologia dos índices de incerteza, iniciada após a crise global, provavelmente levará a um salto na qualidade desses indicadores – e também ao avanço da sua compreensão e utilidade para agentes econômicos e profissionais do mercado financeiro.

Recente artigo publicado no site VoxEU, do Centre for Economic Policy Research (CEPR, rede de pesquisa europeia), e de autoria de mais de uma dezena de acadêmicos, analisa o desempenho de várias indicadores de incerteza (alguns são do tipo dos subcomponentes de índices como o IIE-Br e seus congêneres internacionais), relativos aos Estados Unidos e Reino Unido, desde o início da pandemia.

São cinco tipos de manifestação de incerteza: volatilidade dos mercados acionários; medidas de incerteza no noticiário da imprensa; medidas de incerteza no Twitter; medidas de incerteza de executivos sobre o desempenho das suas próprias empresas captadas em pesquisas como a dos índices de confiança; e incertezas captadas pelo desacordo entre previsões do PIB de analistas dedicados a fazer projeções econômicas.

Quase todas as medidas subiram fortemente com a Covid-19 nos Estados Unidos e Reino Unido, e bateram seus recordes históricos. As exceções foram a volatilidade dos mercados acionários, cujo pico histórico foi na crise financeira global, e as divergências nas projeções econômicas do PIB dos EUA, cujo pico foi nos anos 70.

Outra constatação é que os saltos de incerteza tiveram dimensões muito variadas entre os diversos indicadores. Um dos maiores foi a divergência nas projeções de PIB do Reino Unido, que cresceu 20 vezes.

Um terceiro aspecto destacado pelos pesquisadores foi o diferente timing das oscilações nos diversos indicadores de incerteza. A do mercado acionário chegou ao ponto mais alto em março, enquanto medidas do lado real da economia (como a dos executivos sobre o desempenho das suas empresas) ainda estavam extremamente elevadas no final de junho.

Na conclusão, os autores escrevem que ainda resta descobrir quais dessas medidas de incerteza é de fato a mais útil para guiar investidores e agentes econômicos em tempos de incerteza aguda, como durante e após a pandemia. A divergência mencionada acima entre o mercado financeiro e a economia real é um bom exemplo dessa interrogação.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 29/7/2020, quarta-feira.

Tendências: