A maior fragilidade do ajuste

Grande dificuldade é prosseguir com uma política que contraria o pensamento histórico do partido no governo e que críticos à esquerda e à direita veem como fadada ao fracasso.

Fernando Dantas

29 Outubro 2015 | 13h27

Quanto tempo pode resistir uma política econômica que não só está associada a uma das maiores recessões em mais de um século – o que não quer dizer que a tenha causado – como também contradiz frontalmente todo um discurso de campanha, além das crenças e da visão de mundo do núcleo do eleitorado do governo que neste momento a implementa?

A pergunta acima, se colocada a um estrangeiro, com pouco contato com as especificidades do caso brasileiro, certamente seria respondida com “muito pouco tempo”. No entanto, no Brasil de hoje, a percepção dos agentes econômicos e da maior parte da sociedade é de que o País seguirá trafegando por um túnel no fim do qual, quase que por definição, não surgirá luz. De forma no mínimo estranha, a maioria das pessoas supõe a continuidade de uma situação cada vez mais insuportável.

Porque há, na verdade, um ponto comum entre quase todos os críticos da atual política econômica, estejam no campo ortodoxo ou heterodoxo: o ajuste econômico – fundamentado no ajuste fiscal – dos ministros da Fazenda, Joaquim Levy, e do Planejamento, Nelson Barbosa, está fracassando ou já fracassou.

Do lado ortodoxo, o diagnóstico de Levy é considerado correto, e o fracasso é atribuído a diversos fatores, que estão interligados. O ajuste demorou muito a começar, permitindo um acúmulo de desequilíbrios excessivamente grande. A visão historicamente heterodoxa de Dilma Rousseff e do PT compromete as condições de sucesso do ajuste. A presidente destruiu sua credibilidade política com o “estelionato eleitoral”.  Inviabilizada politicamente, a presidente não tem condições de manter a credibilidade de que o ajuste será levado às últimas consequências, o que mina a confiança dos agentes e impede o sucesso da correção de rumos.

Já no campo heterodoxo, a visão é de que o diagnóstico de Levy está errado, e o ajuste fiscal caiu na armadilha da espiral negativa de cortes de gastos e quedas de receita. O economista Guilherme Mello, da Universidade de Campinas, agrega mais um elemento nesta crítica. Ao adotar o ajuste ortodoxo, Dilma contrariou sua base eleitoral de forma radical, o que é uma das razões principais para o desmoronamento do seu poder político. Assim, a natureza do ajuste tentado já carrega em si as sementes políticas do seu fracasso – independentemente de Mello considerar que a terapia também está errada.

Analisada por esse prisma, a visão de Mello e de outros economistas que participaram da elaboração do documento “Por um Brasil Justo e Democrático” – uma espécie de manifesto heterodoxo contra a atual política econômica – pode ter mais poder de convencimento do que  julgam os seus muitos críticos.

A questão não é concordar ou discordar (este colunista discorda das premissas e das sugestões do manifesto heterodoxo), mas constatar a precária lógica política que sustenta a atual política econômica. Afinal, o ajuste de Levy e Barbosa não só é considerado inviável ou fracassado por todas as correntes de economistas, como indubitavelmente está destruindo os laços de lealdade entre a presidente e o PT, de um lado, e o seu eleitorado tradicional, do outro.

Provavelmente, o fato de que o ajuste ortodoxo ainda persista está ligado à desmoralização do pensamento heterodoxo com o fracasso da nova matriz econômica. Justa ou injusta – muitos economistas desenvolvimentistas a consideram injusta –, essa associação é forte e, de certa forma, tira do jogo por enquanto a opção de Dilma de dar uma guinada em direção a uma política econômica mais alinhada com o pensamento tradicional do PT. Mas isto não significa que o atual ajuste tenha bases sólidas. O caráter quase paradoxal de um governo sustentar uma política que quase todos julgam fadada ao fracasso e que está destruindo seu capital político atesta a fundamental fragilidade da atual política econômica. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 26/10/15, segunda-feira.