A maré otimista e os céticos

Houve melhora nas últimas semanas nos mercados, com alta da Bolsa e queda do dólar. A ida de Temer para a articulação política e a publicação do balanço da Petrobrás podem ter contribuído, mas há analistas que veem com ceticismo a onda otimista.

Fernando Dantas

26 de abril de 2015 | 12h52

A maré de relativo otimismo em relação ao Brasil das últimas semanas, refletida na alta da Bolsa e na queda do dólar, não se deve apenas às perspectivas mais benignas sobre o início do ciclo de aperto monetário nos Estados Unidos. Ainda se crê que a primeira elevação do juro básico americano seja este ano, mas possivelmente mais para frente e com cuidados redobrados do Fed (BC do país) para não causar elevação abrupta da curva de juros do país. Além do fator externo, a percepção específica sobre o risco Brasil também melhorou em termos relativos, a julgar pela análise do economista Bráulio Borges, da LCA.

Borges vem acompanhando o spread entre os credit default swaps (CDS, uma importante medida de risco) do Brasil e da Turquia. A escolha do segundo país não é acidental. Borges nota que a Turquia não tem grau de investimento nas três principais agências: possui junto à Moody’s e à Fitch, mas não na S&P. Em termos comparativos, “é o País logo abaixo de nós em termos de risco”, ele diz, já que o Brasil tem grau de investimento nas três, mas está ainda muito próximo da linha divisória com o grau de risco especulativo.

Apesar da melhor classificação por parte das agências, desde o final de novembro o CDS do Brasil apresentou um spread de risco em relação ao turco, que chegou a um nível máximo de quase 100 pontos base (1 ponto porcentual) em meados de março. Com a melhora recente, esse spread foi refluindo até desaparecer (pelos dados do fechamento de ontem, o CDS do Brasil era cotado sete pontos base abaixo do turco).

“Em meados de março, o mercado estava precificando com 100% de certeza que o Brasil iria perder o grau de investimento, e agora está dando o benefício da dúvida”, analisa Borges.

O economista lista alguns fatores que podem ter embasado essa aparente melhora. O primeiro seria a melhora da coordenação política do governo, com a entrada do vice-presidente Michel Temer nesta função. “Com a publicação do balanço da Petrobrás, tirou-se um bode da sala”, acrescenta Borges. Ele nota que o mercado apreciou uma contabilização mais realista das perdas da estatal, não só com a corrupção, e que o presidente Aldemir Bendine sinalizou que os preços de combustíveis vão seguir a cotação internacional.

Outro fator positivo, na visão do analista da LCA, é que a nova metodologia das contas externas, mesmo tendo elevado o déficit em conta corrente de 2014 para 4,4% do PIB, indicou que uma parcela de 4,1% do PIB (e não 2,7%, como aparecia da metodologia anterior) foi financiada por investimento estrangeiro direto.

Para Borges, a consolidação da maré positiva depende agora da área fiscal. “O mercado quer ver o ajuste”, ele diz. O panorama está indo bem nos governos subnacionais, que fizeram no primeiro bimestre um superávit primário superior à meta para o ano, mas ainda restam muitas dúvidas sobre o governo federal, cujos números até agora estão longe de sinalizar o cumprimento do seu objetivo. O economista acrescenta que não se deve contar tão cedo com a melhora no quadro de atividade para embasar o atual otimismo, mas que o lançamento do pacote de concessões previsto para maio pode ter um efeito positivo no apetite do investidor estrangeiro.

José Márcio Camargo, economista-chefe da gestora Opus, no Rio, considera que a “terceirização” da coordenação política para Temer fez com que os agentes econômicos passassem a acreditar num cenário mais calmo nos próximos meses. A publicação do balanço da Petrobrás também contribuiu para desanuviar os ânimos.

Ele nota também que houve um aumento surpreendente do preço do minério de ferro nas últimas semanas, e, assim, duas empresas importantíssimas no mercado acionário – Petrobrás e Vale – experimentaram grandes altas dos seus papéis recentemente, puxando a bolsa.

Mas Camargo não está embarcando no otimismo: “O problema é que os fundamentos continuam muito ruins, e minha expectativa é de que esse respiro atual vai passar, o desemprego vai aumentar, a inflação será muito elevada, a situação política ficará mais difícil, e em algum momento a bolsa vai piorar”.

Em relação ao Caged, que mostrou um panorama dos empregos formais em março melhor do que o mercado esperava, com criação de 19 mil empregos, o economista observa que a média do mês é de 101 mil. “Foi melhor do que o mercado pensava mas não foi exatamente brilhante”.

Finalmente, o economista da Opus pensa que, quando a elevação do juro básico dos Estados Unidos de fato vier, a economia americana vai atrair mais capitais e o Brasil, com déficit em conta corrente de 4,5%, sentirá este efeito, com uma provável segunda onda de desvalorização cambial.

O economista Mansueto Almeida, especialista em contas públicas, também é cético quanto aos fundamentos da atual maré otimista. “Do ponto de vista de dados concretos, a economia real não valida o otimismo do mercado financeiro nos últimos 30 dias – permanecem as mesmas dúvidas que havia há um mês e meio atrás”.

Na decisiva área fiscal, ele prevê uma queda real de quase 4% na receita do governo federal no primeiro trimestre. Almeida também não vê sinais concretos da propalada melhora da articulação política desde que Temer assumiu a tarefa. Os relatores das medidas provisórias que mexem com programas sociais como seguro-desemprego e abono salarial introduziram emendas que suavizam as medidas e, na tramitação da lei da desoneração, não houve inclusão de pontos que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, negociou com os parlamentares para tentar fazer constar do texto.

Em conclusão, Almeida acha que “a melhor notícia concreta mesmo continua sendo a que vem lá de fora, de que o início do ciclo do aumento dos juros americanos pode ser um pouco postergado”. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 24/4/15, sexta-feira.

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