A mobilidade e o PIB na pandemia

Trabalho de Michael Spence, prêmio Nobel de economia, e do economista chinês Chen Long, diretor do think tank do grupo Alibaba, disseca como a pandemia está afetando a atividade econômica em 131 países, usando dados de mobilidade do Google, Apple e aplicativos chineses. A situação do Brasil é "sombria", segundo os pesquisadores.

Fernando Dantas

03 de junho de 2020 | 19h13

Uma parcela de 75% da queda do PIB no primeiro trimestre, em 19 países e regiões que já anunciaram o indicador, pode ser explicada pela redução da mobilidade no período, em função do isolamento social para combater a pandemia do coronavírus.

Esse cálculo está em estudo sobre mobilidade e PIB, no contexto dos efeitos da Covid-19, realizado por Michael Spence, Prêmio Nobel de Economia, e o economista Chen Long, diretor da Luohan Academy, think tank patrocinado pelo grupo chinês Alibaba.

O estudo, descrito num longo artigo no site do Project Syndicate, busca justamente usar as ferramentas de medição de mobilidade para analisar mais tempestivamente a evolução da atividade econômica nos diversos países durante a pandemia, já que o PIB é um indicador com muita defasagem.

E o objetivo de fazer esse acompanhamento mais tempestivo é justamente o de contribuir para que as decisões sobre a reabertura gradual das economias contem com uma visão mais precisa do que está acontecendo com a atividade.

Os autores rastrearam o nível da mobilidade (como porcentual do nível em tempos normais) em 131 economias. Eles usaram basicamente dados do Google (mobilidade relativa ao varejo, recreação, comércio de alimentos, farmácias e locais de trabalho). No caso da Rússia, foram utilizados dados da Apple (condução de veículos, trânsito e caminhadas). Já para a China, foram empregados o AMAP e Baidu, aplicativos chineses de serviços com base em localização.

Como frisam, uma das principais vantagens dessa base de dados é sua renovação rápida, em termos semanais e, por vezes, diários.

Outra vantagem é que a mobilidade captura os efeitos tanto do isolamento social comandado pelos governos quanto daquele que é feito por iniciativa própria das pessoas, com sua aversão particular ao risco.

E, finalmente, o indicador funciona bem para o propósito almejado, isto é, ele de fato reflete uma parte substancial das variações do PIB nas diversas economias.

A análise da mobilidade realizada pelos autores indica que há certo padrão no efeito da pandemia na atividade econômica nos diversos países. A queda inicial é drástica, devido à quarentena, há um período no fundo do poço e a recuperação é bem mais lenta, exatamente pelo “trade-off” entre reabertura e risco de novas ondas de reinfecção.

Ao se reaproximar dos níveis anteriores de produto, a retomada desacelera ainda mais, pela dificuldade de se retomarem as atividades em setores como viagens aéreas e eventos esportivos, por exemplo.

O desafio de evitar o mergulho inicial, na base de detecção precoce e contenção, foi perdido pela maioria dos países. Agora o que resta é reduzir o tempo no fundo do poço, mas contendo o coronavírus. Uma recuperação mais rápida só virá no caso de uma vacina estar logo disponível.

Os economistas usam o número de dias para que os casos confirmados se dupliquem como indicador – DD, de “doubling days”. Nos países que eles já consideram em condições de retomada, o DD é de 19 ou mais. Para ser considerado em condições de retomada, o país tem que ter três dias consecutivos em que as curas superam as novas infecções.

Segundo esse levantamento, 70 países (incluindo o Brasil) ainda estão nas fases de mergulho inicial e fundo do poço, e 45 já se encontram em recuperação (como China e Alemanha).

As estimativas dos autores indicam que a atividade na China já voltou a 98% do seu nível pré-pandemia. Coreia do Sul, Hong Kong e Taiwan já estão a 95% ou mais do nível pré-crise, e tiveram ciclos mais rápidos que o da China. Naqueles três países o DD já é superior a 50.

O estudo confirma com mais robustez o que já parecia evidente: quanto mais rápida e decisiva a contenção inicial do vírus, menor o preço econômico a pagar.

Os países da “segunda onda” da Covid – termo empregado aqui para aqueles em que o vírus chegou depois de pandemia na China e Ásia – foram piores no controle da doença e em termos de efeitos econômicos, segundo o trabalho.

A Itália e a Espanha demoraram bem mais (que os asiáticos) para passar pela fase do fundo do poço, e, embora já consideradas em condições de recuperação, melhoraram muito pouco em termos de atividade. Os Estados Unidos ainda não estão em condições de retomada.

Na Escandinávia, o mergulho inicial da Suécia foi menor (por não ter feito uma quarentena dura), mas o país ainda não satisfaz as condições de recuperação dos autores. Já a Noruega caiu mais, mas já superou a Suécia em termos de retomada da atividade economia (medida pela mobilidade).

O pior caso, para os economistas, é o da “terceira onda”, os países emergentes cuja pandemia começou depois da europeia, como é o caso do Brasil.

Esses países têm condições bem piores de enfrentar a pandemia. Enquanto os testes por mil pessoas dos países ricos estão numa média de 29,6, o do grupo dos melhores emergentes (renda média alta) estão em 3,4.

Brasil

O Brasil, para eles, é um caso particularmente ruim. Depois de 72 dias, o País ainda está longe do DD médio das economias já em recuperação (que é de 19), com o indicador em torno de 10.

Isso significa, segundo os autores, que o Brasil “ainda não encontrou uma forma efetiva de combater a pandemia ou de apoiar a recuperação econômica”.

Por outro lado, e apesar de considerarem as perspectiva brasileira “sombrias”, eles constatam (com base na mobilidade) que, num grupo que inclui Argentina, Peru, Uruguai e México, o Brasil foi o que teve menor perda de atividade no fundo do poço, já estando em 90% do nível normal.

Entretanto, como os economistas explicam, uma coisa depende da outra. Se a atividade no Brasil caiu menos porque se combateu pior o vírus, o País permanecerá mais tempo sem condições de ter uma retomada de volta para a normalidade.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 2/6/2020, terça-feira.