A nova equipe e as análises simplistas

A visão de que Levy entrou para arrumar a casa, e mais à frente Barbosa assumirá a liderança da equipe econômica para esquentar a economia é simplista. Interações entre economia e política são sempre mais complicadas do que parecem à primeira vista.

Fernando Dantas

07 Dezembro 2014 | 23h52

Há uma visão em voga entre analistas econômicos e políticos que traz uma explicação muito precisa para a escolha de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda e de Nelson Barbosa para o Ministério do Planejamento.

A visão é de que o ortodoxo Levy fará a “arrumação de casa” nos dois primeiros anos, sendo posteriormente substituído por Barbosa (seja pela mudança deste para a Fazenda, seja pela elevação do status do Planejamento pela presidente) como principal líder da política econômica. Neste novo papel, Barbosa, um economista desenvolvimentista, trataria de estimular a demanda para preparar o terreno para mais uma vitória eleitoral do PT, dessa vez com Lula como candidato.

Os observadores que projetam esse cenário baseiam-se em parte no fato de que em períodos anteriores da história econômica brasileira houve a sucessão entre gestões ortodoxas que arrumaram a casa e períodos de expansionismo ligados seja ao estatismo, seja ao populismo, ou a uma combinação entre os dois. Os dois casos clássicos mais recentes foram o ajuste de Campos-Bulhões de 1964 a 1967, cujas mudanças levaram ao milagre econômico do regime militar, e o período de 1999 a 2006, englobando a gestão na Fazenda de Pedro Malan e Antônio Palocci (em dois governos diferentes), que desembocou nos anos de ouro da era lulista.

Mas essa visão bastante esquemática da escolha de Levy e Barbosa passa por cima de muitos matizes que tornam a projeção da política econômica no segundo mandato de Dilma Rousseff um exercício bem mais complexo do que possa parecer à primeira vista.

Em primeiro lugar, foram pouquíssimos os que previram (se é que houve alguém) que Dilma faria uma escolha tão ortodoxa para iniciar a segunda metade do seu governo. Os cenários mais comuns eram o de “tocar com a barriga” (ajuste mínimo) ou o de “dobrar a aposta”, num caminho progressivo rumo à argentinização. A surpresa da nomeação de Levy é uma demonstração de que as interações entre economia e política são tão complexas que é muito difícil fazer projeções acertadas sobre os rumos da política econômica.

Um segundo ponto a ser notado é que, tanto no caso do ajuste Campos-Bulhões como no caso dos ajustes sucessivos de Malan e Palocci, de fato a casa foi arrumada antes que o expansionismo começasse. Numa metáfora bem simples, encheu-se o tanque antes de afundar o pé no acelerador.

Agora, porém, é muito duvidoso que o ajuste que já se inicia da economia brasileira estará concluído em dois anos. A situação, como frisam diversos analistas, é muito diferente de 2003. O déficit em conta corrente está roçando no limite de segurança, o câmbio ainda está valorizado, o superávit primário foi zerado e a inflação está elevada em função do seu componente mais inercial e ligado à demanda, os serviços. O mercado de trabalho apenas começa a esfriar. É um quadro que sugere um ajuste menos abrupto e mais prolongado, salvo em caso de uma crise de financiamento internacional, que ninguém deseja.

É muito provável que, em caso de um ajuste bem feito, a economia em 2018 esteja menos desequilibrada em todos aqueles aspectos, e que um crescimento menos medíocre tenha se tornado factível. Mas é difícil de acreditar que a conjuntura seja tão fundamentalmente diferente da atual a ponto de que funcionem os mesmos estímulos de demanda que fracassaram fragorosamente em relançar a atividade em de 2012 a 2014. O “trade-off” entre interromper no meio um ajuste incompleto para tentar um muito duvidoso empurrão de demanda parecerá bem menos atraente, tanto política quanto economicamente, do que em 2006.

Finalmente, Barbosa tem um perfil muito diferente do atual ministro da Fazenda, Guido Mantega, e provavelmente saberá dos riscos de tentar novamente uma estratégia que fracassou no primeiro mandato de Dilma Rousseff. E sempre é bom lembrar que uma eventual saída de Levy da nova equipe econômica por si só é um evento capaz de trazer imediatamente perda de confiança e aumento do risco País, tornando ainda piores os prognósticos de descuidar dos fundamentos macroeconômicos para pisar fundo no acelerador da demanda.

Tudo isso quer dizer que não haverá uma virada heterodoxa ao longo do segundo mandato de Dilma? Na verdade, esta continua a ser uma possibilidade, mas o caminho até lá pode ser mais complicado do que a visão “arrumação da casa” seguida de “pau na máquina”. Um possível cenário é aquele em que Levy caia pela demora do ajuste em promover crescimento e bem estar. Barbosa poderia assumir o comando ou não, mas uma eventual tentativa de empurrar de qualquer maneira pela demanda uma economia ainda em convalescença provavelmente seria muito mais um ato de desespero movido por forças políticas temerosas de perder as eleições de 2018 do que fruto de decisões convictas do novo ministro do Planejamento.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 5/12/14, sexta-feira.