A nova Petrobrás e a inflação

Se de fato a Petrobrás em sua nova fase for reajustar a gasolina de acordo com o mercado, cria-se um novo risco inflacionário.

Fernando Dantas

19 Maio 2015 | 23h43

Muito se tem comentado sobre a suposta mudança recente de postura do Banco Central numa direção mais ‘hawkish’, que estaria inclusive mais dura em relação ao risco inflacionário do que uma parcela do mercado. A tese é duvidosa, já que o BC aparentemente tem agido assim para ancorar expectativas, e, se de fato estivesse mais conservador que o mercado, estas deveriam se alinhar muito mais velozmente. De qualquer forma, um respeitado e conhecido gestor levanta uma hipótese alternativa: talvez o BC esteja de olho na interação inflacionária entre ajuste fiscal (com aumento de tributos), câmbio e gasolina, algo que parece ainda não ter entrado no radar do mercado, na sua avaliação.

Ontem, Ivan Monteiro, o diretor financeiro da Petrobrás, reafirmou que a estatal, em sua nova fase de gestão, tem liberdade para fixar os preços dos combustíveis de acordo com a sua conveniência como empresa. “A gente tem sempre falado, queria reiterar novamente, que a companhia tem a liberdade e vai atuar praticando preços competitivos e de mercado; esse é o nosso posicionamento, e não poderia ser diferente, uma companhia de capital aberto”, disse Monteiro em teleconferência sobre os resultados do primeiro trimestre.

Se essa disposição se confirmar, novas altas da gasolina podem se tornar inevitáveis enquanto o BC trava a sua grande batalha para controlar as expectativas de inflação.

Segundo cálculos do gestor mencionado acima, a defasagem média da gasolina em relação aos preços internacionais no primeiro trimestre foi negativa em 19,9% – em outras palavras, a estatal foi beneficiada por um preço interno mais alto do que o externo, o que possibilitou ganhos de R$ 1 bilhão, que contribuíram para o bom resultado no início deste ano.

Mas a recuperação do preço do petróleo e a desvalorização do real consumiram a gordura da venda de combustíveis do primeiro trimestre. Agora, já há defasagem positiva de 5,7% e, de acordo com as contas do gestor, nas hipóteses de convergência linear da taxa de câmbio atual para os R$ 3,20 projetados para o Focus para o final do ano e de um preço do barril estável em US$ 59, a defasem ao fim de 2015 será de 10,9%. Se o preço da gasolina for ajustado para zerar esta defasagem, o impacto no IPCA será de 14 pontos base (centesimais).

Mas esse cálculo não dá conta de todo o risco inflacionário que pode derivar dos reajustes da Petrobrás. A necessidade de reforçar o ajuste fiscal poderia levar a novos aumentos de tributos que afetassem o preço da gasolina. No início do ano, houve aumento do PIS/Cofins e da Cide sobre os combustíveis.

O gestor nota ainda que a lógica da atual política econômica apontaria para um câmbio mais desvalorizado, se a ideia é corrigir todos os desequilíbrios da economia brasileira, inclusive o externo.

Já a evolução do preço externo do petróleo é uma incógnita. Porém, se a Petrobrás vai de fato ajustar os combustíveis de acordo com suas necessidades como empresa, de forma independente da política anti-inflacionária, há sempre o risco de que eventuais flutuações para cima no preço do barril transformem-se mais rapidamente em aumento da inflação doméstica. É mais um item na lista nada invejável de preocupações do Banco Central. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast