A OCDE e a inflação global

Relatório trimestral divulgado hoje (1/12) pelo "clube dos países ricos" (mas que hoje já tem vários emergentes) prevê que inflação se normaliza em 2023, mas com riscos consideráveis no caminho.

Fernando Dantas

01 de dezembro de 2021 | 20h23

No relatório trimestral sobre a economia global divulgado hoje, a OCDE faz uma recomendação que poderia muito bem ter sido endereçada especificamente ao Banco Central do Brasil: “As autoridades monetárias deveriam se comunicar claramente sobre até que extensão o desvio para cima da inflação em relação à meta será tolerado, para ajudar a evitar flutuações excessivas nas taxas de juros de longo prazo de mercado”.

Como se sabe, o BC reluta em admitir que a meta de inflação de 3,5% de 2022 se tornou virtualmente impossível de atingir (a não ser por uma elevação de juros que leve a uma recessão catastrófica). Essa resistência, por sua vez, deixa os mercados sem pistas do que seria o verdadeiro limite tolerável para a autoridade monetária de desvio da inflação em relação à meta em 2022. O que não ajuda a “evitar flutuações excessivas nas taxas de juros de longo prazo de mercado”.

A alta global da inflação, aliás, é um tema central nesse relatório trimestral da OCDE. O documento nota que os preços do petróleo mais do que dobraram desde junho de 2020, período no qual a produção global ficou abaixo do nível de 2019. Um comportamento similar foi registrado para carvão, alguns metais e diversas commodities agrícolas e industriais. Em particular, os preços do gás e os custos de eletricidade dispararam, e o relatório dedica um boxe apenas a esse tema.

Nessa seção, o documento aponta que a alta do carvão e do gás natural até o pico no início de outubro foi de, respectivamente, oito e 18 vezes, com alguma moderação desde então. Em todas as commodities ligadas à energia, o fator comum foi oferta restrita e o aumento da demanda com a reabertura das economias.

Mas o boxe aponta também vários fatores particulares, como eventos climáticos ou ligados à pandemia que afetaram negativamente a produção de petróleo, carvão e energia eólica,  e positivamente a demanda por energia (como o inverno rigoroso na Europa).

Em termos do desvio, causado pela pandemia, do consumo  de serviços para bens, pressionando o preço desses últimos, o relatório trimestral da OCDE nota que o fenômeno foi bem mais intenso nos Estados Unidos do que na Europa. Nas economias avançadas como um todo, a mediana da inflação de bens se situa até as últimas leituras em torno de 5%, enquanto a inflação de serviços está em 2%.

A OCDE projeta para 2022 inflação de 4,5% para o conjunto de países membros (38 nações, incluindo quase todo o mundo desenvolvido e uma minoria de emergentes), e 3,5% para as economias avançadas. Mas a organização prevê que o “típico” país rico volte à faixa tradicional de inflação de 2% em 2023, com exceção dos Estados Unidos, Reino Unido e Canadá, onde o aperto monetário deve ir um pouco mais longe.

Porém, para a OCDE, os riscos de que esse cenário básico benigno não se materialize são altos –  especialmente o de que os atuais gargalos logísticos e produtivos, que estão pressionando os preços dos bens, revelem-se ainda mais prolongados, severos e disseminados do que se prevê. Esse risco se soma e se retroalimenta com o da alta das expectativas inflacionárias e das pressões salariais.

Uma eventual nova piora contundente da pandemia, seja em termos globais ou em áreas geográficas vitais para as cadeias produtivas globais, como a Ásia, aumentam o risco de prolongamento e agravamento dos gargalos.

Por enquanto, o relatório mostra que entre 35% e 40% das empresas americanas esperam que os nós logísticos da pandemia, como atrasos de produção, atrasos de transporte e indisponibilidade de insumos, durem até o segundo semestre de 2022. Uma proporção menor, mas ainda significativa de empresas, prevê o fim dos gargalos ainda no primeiro semestre do próximo ano.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 1/12/2021, quarta-feira.