A pergunta de trilhões de dólares

Debate entre grandes economistas sobre se o superpacote fiscal de Joe Biden vai ou não vai superaquecer economia americana se dá na base de palpites esclarecidos e está em aberto.

Fernando Dantas

25 de março de 2021 | 18h54

Em recente post no seu blog, o economista e colunista norte-americano Noah Smith alega que, no acirrado debate sobre o risco de superaquecimento da economia dos Estados Unidos em função da aprovação do pacote fiscal de US$ 1,9 trilhão de Joe Biden, as discussões envolvem muito pouca pesquisa acadêmica, baseando-se mais em “heurística, regras de bolso e cálculos simples”.

Heurística significa métodos práticos para resolver problemas, que não são necessariamente perfeitos e racionais, mas que servem para se chegar a uma resposta aproximada no curto prazo. É justamente o que todo mundo faz quando não há uma teoria científica sólida para orientar as ações.

Para Smith, os economistas de renome estão se afastando dos artigos acadêmicos nesse debate porque há problemas muito grandes tanto com os modelos matemáticos utilizados como com os dados macroeconômicos, que de certa forma colocam em xeque a capacidade de se fazer uma discussão com mais rigor científico.

A impressão que se tem é que o ‘post’ do economista é uma forma mais elaborada de dizer que a ciência econômica atual não tem como dar uma resposta segura à pergunta de alguns trilhões de dólares: a inflação nos Estados Unidos voltará com força e durabilidade suficientes para dar um susto nos mercados e no Fed, BC americano, obrigando este último a pisar forte no freio dos juros e levar a economia à recessão em algum momento dos próximos anos?

Smith, em particular, pende para o lado otimista, considerando que pacote de US$ 1,9 trilhão é mais de “alívio para desastre” do que de estímulo. Ele quer dizer que o dinheiro pode ser mais usado para reconstituir balanços e poupança de empresas e indivíduos do que para expandir gastos.

Mas fica claro que a sua opinião também é uma forma de “heurística” como a de outros participantes no debate. Tanto que, ao final do artigo, o economista declara que o pacote de Biden é um “experimento” que vai testar hipóteses como as de que estímulos fiscais, demanda e emprego são muito importantes e dívida pública “não importa”.

Se a aposta der certo, os economistas aprenderão uma lição valiosa, e, se falhar (isto é, provocar inflação e recessão), “vai ser um problema”.

Curiosamente, Smith parece gostar dessa política econômica como experimentação: “(…) progresso real em teoria econômica às vezes depende de alguns líderes ousados estarem dispostos a se aventurar para fora dos limites que a ortodoxia diz que são seguros”.

De fato, a incerteza sobre o que ocorrerá com a economia americana nos próximos anos, sob o feito do superestímulo fiscal, é enorme.

Recente levantamento do New York Times com dez economistas de prestígio, sobre se o pacote fiscal vai superaquecer ou não a economia dos Estados Unidos, mostra não só respostas muito diferentes, mas também abordagens das mais diversas.

Alguns tem respostas superdiretas e específicas, como Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro. Para ele, há 1/3 de chance de haver inflação duradoura acima da meta de 2% do Fed; 1/3 de chance de o Fed coibir a primeira com aperto monetário, provocando instabilidade financeira ou recessão; e 1/3 de chance de a política dar certo.

Já Olivier Blanchard, ex-economista chefe do FMI alega incerteza sobre a dimensão e as características finais do pacote, sobre a reação do Fed a possíveis pressões inflacionárias e sobre outros fatores macroeconômicos, envolvidos. Mas ele alerta que qualquer desses ingredientes pode dar errado.

Do lado dos otimistas, o economista Brad DeLong , da Universidade da Califórnia em Berkeley, nota que o nível de preços nos Estados Unidos hoje deveria ser 9,6% mais alto se a meta de inflação de 2% do Fed tivesse sido cumprida desde a “Grande Recessão” (2007-2009) – quer dizer, a meta tem sido sistematicamente descumprida para baixo. Assim, DeLong considera que há coisas mais importantes com que se preocupar na economia americana do que inflação.

Alguns dos consultados estabelecem parâmetros acima dos quais seria justificável se preocupar, como inflação anualizada em 2021 e 2022 acima de 3,5%, inflação implícita nos títulos pré e pós-fixados de 3% ou mais, juros do título de dez anos acima de 4% e taxa de desemprego abaixo de 3,5%.

Já para Claudia Sahm, ex-economista do Fed, não existe um número mágico de inflação que indique superaquecimento, mas sim uma trajetória de inflação que começa a subir e não para.

De toda a discussão, o que sobressai é que efetivamente, como pontuado por Noah Smith, a discussão se dá na base de certo “achômetro”, ainda de que de economistas com grande bagagem acadêmica e experiência prática. Acrescentando que há forte dissenso de visões, a conclusão é que não dá para saber se a economia americana vai para o superaquecimento ou não.

Para o Brasil, essa incerteza pode ser um fator importante de instabilidade neste e nos próximos anos. Com a vulnerabilidade fiscal do País, um solavanco na economia dos Estados Unido pode facilmente se transformar num terremoto no Brasil.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 25/3/2021, quinta-feira.