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A péssima escolha dos militares

As Forças Armadas estão colocando em enorme risco a sua imagem, já manchada pela ditadura e pelos crimes do Estado naquele período, ao se associar ao desgoverno do mau militar Jair Bolsonaro. Esta coluna foi escrita antes da nota descabida e ameaçadora à democracia do general Heleno, divulgada hoje, 22/5.

Fernando Dantas

22 de maio de 2020 | 19h22

Os militares brasileiros estão colocando em enorme risco a sua imagem junto à sociedade nacional, ao se associar cada vez mais a um governo caótico, incompetente, perverso e que no momento é responsável por milhares de mortes evitáveis de cidadãos do País.

Tomando-se tanto os da reserva (maioria) quanto os da ativa, no momento, dos 22 ministros (ou cargos com status ministerial), nove são militares, incluindo o interino Eduardo Pazuello na Saúde. Há ainda o policial militar da reserva Jorge Oliveira na Secretária-geral da Presidência da República.

Três desses militares estão no Palácio do Planalto, com máxima proximidade de Bolsonaro: Braga Netto na Casa Civil, Augusto Heleno no Gabinete de Segurança Institucional, e Luiz Eduardo Ramos na Secretaria do Governo.

As últimas estimativas dão conta de aproximadamente 3 mil militares em cargos do governo federal, tipicamente ocupados por civis, nos diversos escalões. Militares já ocupam 21 cargos no Ministério da Saúde.

Os militares saíram com uma péssima imagem da ditadura de 1964 a meados da década de 80.

O País ingressou na democracia em meio a uma fortíssima crise econômica, com um modelo de crescimento em colapso, e com memória recente de episódios extremamente comprometedores para os militares, como o atentado do Riocentro, e o inquérito-farsa que eles realizaram depois.

Após a redemocratização, as torturas e assassinatos cometidos pelo Estado brasileiro, comandado pelos militares durante a ditadura, foram expostos em toda a sua abjeção para a sociedade.

Porém, como observa o cientista político Octavio Amorim (Ebape-FGV), ao longo de mais de 30 anos de democracia, as Forças Armadas foram paulatinamente melhorando a sua imagem.

Missões de paz, como no Haiti, as operações de garantia da lei e da ordem (GLO), apoio logístico a serviços de educação e saúde nos rincões mais inacessíveis do País – houve todo um cardápio de ações que mostraram à população um lado admirável das Forças Armadas.

Sobretudo, os militares desde o governo Sarney (e antes de Bolsonaro) se abstiveram de qualquer participação digna de nota na atribuladíssima vida política das primeiras décadas de democracia.

Como comenta Amorim Neto, “toda uma longa história de golpes, quarteladas, insurreições e crises militares foi deixada para trás”.

As Forças Armadas integraram-se mais profundamente com o poder civil, como se espera na democracia, por meio de uma série de fatos nos governos da “Nova República”: a criação do Ministério da Defesa por Fernando Henrique, e o advento (com forte participação civil) da Estratégia Nacional de Defesa, da Lei da Nova Defesa e do Livro Branco da Defesa Nacional nos governos Lula e Dilma.

Amorim vê um ponto de inflexão a partir do primeiro mandato de Dilma Rousseff, quando a instalação e exposição final de nomes da Comissão Nacional da Verdade teria melindrado as Forças Armadas.

Na verdade, isso pode ser visto como consequência de uma omissão anterior. Diferentemente do que ocorreu na Argentina e no Chile, a anistia brasileira perdoou os executores de crimes cometidos pelo Estado brasileiro durante a ditadura.

O cientista político observa ainda que outro ponto de inflexão se deu no governo Temer, quando, pela primeira vez desde a sua criação, o Ministério da Defesa foi ocupado por um militar (general Joaquim Silva e Luna).

Com o governo Bolsonaro, o retrocesso acelerou enormemente.

Como aponta Amorim, não só as Forças Armadas voltaram à política, como foram retomados temas clássicos da longa fase intervencionista dos militares na vida nacional, como o anticomunismo e o “salvacionismo” militar por conta da corrupção e incompetências dos civis (supostamente maiores).

O problema é que os militares escolheram muito mal o presidente com o qual decidiram voltar à política.

E eles deviam saber. Bolsonaro foi um péssimo militar, com histórico de insubordinação por nenhuma ideologia específica, mas puramente para defender bandeiras corporativistas.

Adicionalmente, Bolsonaro nunca escondeu se identificar com os grupos mais repugnantes moralmente da ditadura, elogiando a tortura e os torturadores, o assassinato político pelo Estado e aqueles que os cometeram.

Finalmente, há suspeitas muito sérias de ligações da família Bolsonaro com as milícias, o mais pervertido dos desvios do princípio do monopólio da violência pelas forças policiais e militares, do qual as Forças Armadas deveriam ser os supremos guardiões.

Não exatamente a ideia de um presidente para limpar a barra dos militares.

Mas com a pandemia tudo piorou.

Bolsonaro está conduzindo (se é que se pode usar essa palavra) uma política sanitária insana, que o transformou num pária no mundo civilizado, e que está causando milhares, talvez dezenas de milhares de mortes evitáveis.

Demorou, mas finalmente a enormidade que o presidente está cometendo começa a bater na sua popularidade, com 50% dos brasileiros rejeitando-o.

À medida que sua governabilidade se esfacela, com as burras sendo abertas ao Centrão, Bolsonaro busca atrair, como uma espécie de defesa ao seu mandato ameaçado, o maior número possível de militares para o governo.

E os militares vão entrando no potencial Titanic, atraídos, talvez, pelas vantagens, verbas e nacos medíocres de poder.

Amorim observa que o Alto Comando das Forças Armadas parece estar preocupado com a deterioração da imagem dos militares pela associação ao governo Bolsonaro.

Mas, francamente, só agora? Talvez já seja tarde demais.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 22/5/2020, sexta-feira.

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