A Petrobrás e o risco Brasil

O rebaixamento da classificação de risco da Petrobrás não afeta diretamente o rating do Brasil, para definição do qual agências olham indicadores mais amplos. Mas se estatal tiver que ser capitalizada com recursos públicos, isso pode afetar o chamado rating soberano.

Fernando Dantas

26 Fevereiro 2015 | 13h44

O economista-chefe do Banco Safra, Carlos Kawall, tem uma visão um pouco menos negativa de que a de muitos analistas sobre o impacto no rating soberano do Brasil da perda do grau de investimento da Petrobrás na classificação da Moody’s. Ele frisa, porém, que não se trata de minimizar o caráter negativo do rebaixamento da maior empresa do País.

“A análise do risco de crédito soberano do Brasil não justificaria ter como um gatilho uma decisão de reclassificação do risco da Petrobrás – não se trata de variável central do risco de crédito soberano, que está mais nas áreas fiscal e cambial”, diz Kawall, referindo-se ao impacto direto da decisão da Moody’s sobre a petroleira.

Ele ressalva que, se a situação evoluir na direção de a Petrobrás não conseguir fechar o balanço, ficar impedida de captar e receber socorro financeiro do governo, o volume substancial deste aporte contaminaria a relação dívida/PIB e, portanto, o risco de crédito soberano. “Mas mesmo assim, no contexto de um ajuste fiscal, que é positivo, não acho que seria suficiente para que o rating soberano fosse revisto, embora o risco de isto ocorrer aumente”, acrescenta Kawall.

Ele nota ainda que há boas chances de que o balanço seja publicado e que as dificuldades financeiras mais imediatas sejam superadas. Além disso, nas contas do Safra, o caixa da Petrobrás aguenta a travessia de 2015, com a possibilidade de haver problemas sendo mais para 2016.

O economista lembra que a Moody’s antecipou a possibilidade de rebaixamento da Petrobrás, chamando a atenção para problemas de liquidez e endividamento. Como não houve melhora, veio o downgrade. No caso do rating soberano, o Brasil está com “outlook” negativo, mas sem o chamado “negative watch”, que é um prazo de 90 dias para uma decisão. No ano passado, a agência mencionou um prazo de um a dois anos para a decisão sobre rebaixar ou não.

Kawall acha que, apesar de todas as trepidações recentes, a escolha pela presidente Dilma Rousseff de uma política econômica ortodoxa no segundo mandato, com ênfase no ajuste fiscal – sacramentada na opção por Joaquim Levy no Ministério da Fazenda – endereça as preocupações da Moody’s e das outras agências de rating.  “Apesar dos riscos, ainda há um encaminhamento positivo dos grandes problemas, como a questão fiscal e o baixo crescimento, e isso é central na decisão de uma agência de rating”, ele diz.

Mesmo do seu ponto de vista relativamente otimista, porém, fica claro que Kawall não descarta caminhos mais indiretos de contaminação, ainda que parcial, do risco soberano, que são justamente os enfatizados por outros analistas.

Para um deles, que preferiu falar em off, há o risco de que as outras duas agências também rebaixem a classificação da Petrobrás, o que, em ambos os casos, significa a perda do grau de investimento. Com dois dos três ratings em nível especulativo, vários fundos internacionais não podem deter papéis da Petrobrás, o que aumentará significativamente o custo de captação da empresa. Neste cenário, uma capitalização pelo governo poderia significar, nas contas do analista, algo como 2% do PIB de acréscimo à dívida pública. “A Petrobrás talvez ainda possa consumir caixa durante dois anos, mas o mercado traz os desdobramentos (como uma capitalização) a valor presente, o que piora o risco Brasil e eleva os juros”, diz. Seria uma deterioração do cenário que poderia precipitar rebaixamentos do risco soberano pelas agências.

O economista Mansueto Almeida, especialista em contas públicas que está em estreito contato com analistas e investidores estrangeiros, nota que a preocupação sobre a possibilidade de “o governo salvar a Petrobrás” é hoje uma das perguntas mais frequentes dos seus interlocutores internacionais. Ele acrescenta que a visão de “tempestade perfeita” na economia e na política do Brasil está ganhando força externamente, com perspectiva de queda do PIB, dificuldades crescentes para cumprir a meta fiscal e paralisação de investimentos na esteira do escândalo da Petrobrás, para não falar da questão energética e hídrica. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 26/2/15, quarta-feira.